_Bom dia seu Osvair! – Caloroso e animado, comprimentou-o.

_Bom dia – seco e desconfiado como nunca fora o seu Osvair.

_Então, quais suas intenções com ela? – Cortando o papo e adiantando a conversa, seu Osvair metralhou.

_Como assim? Intenções? Vou cuidar, dar casa, comida e roupa lavada. O de sempre não?

_Não, não… o mundo de hoje vive um conflito moral muito grande. Não posso deixar qualquer um vir aqui na minha casa e leva-la. Antes quero certificar-me do caráter do sujeito.

_O que é isso? Não posso acreditar que você duvida de mim! Nos conhecemos há tanto tempo.

_Sim, mas isto é diferente.

_É, é diferente mesmo. Porém não entendo como você ainda pode duvidar do meu caráter.

_Bem, desculpe, mas não vamos mudar o foco da conversa. Espero que você entenda o quão difícil é para mim ve-la saindo de casa para morar com outra pessoa. Especialmente sendo tão novinha…

_Ela é linda e carinhosa também.

_Ela é mesmo – respondeu com um suspiro.

_Você sabe que ela estará em boas mãos.

_Sim, creio que sim. Saiba que esta está é uma decisão muito difícil e importante sua, meu jovem. Não dá mais para pensar só na sua própria vida e no que fazia antes. O egoísmo sai e entra um caminhão de amor. Entendeu?

E continuou:

_Olhe, quero tudo em papel passado viu? Não abro mão dessa exigência – dedo em riste.

_Papel passado? Quando tomei esta decisão não havia pensando em formalizar as coisas até este ponto.

_Está vendo? Este é o problema com a juventude. Quer tudo informal. Olhe, desculpe a sinceridade. Mas com a minha menina não! Nem ouse pensar nisso. Vai ser de papel passado!

_Tudo bem, tudo bem. Também não vejo mal nisto. Basta dizer onde, que eu assino. Afinal, o sentimento já existe em meu coração.

Então, ele olhou nos olhos do pretendente e tentou enxergar o fundo de sua alma. Soltou um suspiro apreensivo e revelador. Havia concordado.

_Vá, assine aqui e pode levar – virou o rosto ao entregar uma resma com 5 ou 6 folhas de papel impresso e sua caneta favorita. O pretendente assinou sem nem ler todas as cláusulas.

_Mais um coisa. Minha filha sabe desta nossa decisão?

_Mas é claro! Já está tudo combinado.

_Preferiria que tivesse sido ela mesmo a me dizer.

_Só porque você poderia negar mais fácil. Você ainda terá três meninas em casa. Já pensou na quantidade de bocas para alimentar? Roupa, diversão etc etc?!?!!

_Não me importo com isto, elas são só amor. Um dia você saberá como é. Mas vá logo. Por mim estamos acordados. Vou visitar ela sempre. – Osvair se virou e foi ao seu quarto. Preferiu não ver a cena.

Ele obedeceu e compreendeu seu Osvair. Escolheu a mais bonita e carinhosa das quatro meninas.

“Nos tempos de hoje está tudo mais difícil” – pensou enquanto caminhava e acariciava-a no pescoço, “essa confusão toda para adotar uma das filhas de Isabola, a cadela do seu Osvair”.

Soltou um suspiro de alívio e saiu resmungando, “foi muito mais fácil casar com a filha dele”.

 

Papel passado final