Tropeço é o gato do meu irmão. Ele é deficiente, ou portador de deficiência.

Mais precisamente, o bichano nasceu com má-formação cerebral e tem sua capacidade mental subdesenvolvida. Pelo menos foi o que a veterinária disse na época. Além do mais, como expressão física da má-formação cerebral, Tropecinho possui a patinha da frente defeituosa. Desta maneira, ao tentar correr como um gato qualquer, cai e rola no chão como a bola de pêlos que é.

Em decorrência da pragmática Lei de Darwin, sua mãe o abandonou ainda cedo pois ele não conseguiria seguir a gataria nas trilhas da selva urbana onde fora agraciado com o dom da vida. Mas Darwin não contava com um ingrediente humano chamado “amor”. Ou desejo, sabe-se lá. Tropeço foi adotado pelo meu irmão com menos de um quilo e uma patinha já quase no paraíso dos gatos.

Hoje ele tem 8 kg. Tecnicamente, agora meu irmão agora possui quase oito Tropeços.

A deficiência de Tropecinho pode ser notada após alguns minutos em sua convivência: ele pensa que é um cachorro. Alguns diriam “então é melhor”, outros “não é deficiência”. Vamos apenas deixar claro que, no mínimo, é um desvio do comportamento usual de bichanos. E foi a veterinária quem disse. Ele não late, mas faz cara de safado quando tem fome. Está disponível para carinho a qualquer hora do dia ou da noite (e quem tem gatos sabe que isso não é possível). E, fica com saudade com o dono viaja por muito tempo, mesmo que haja comida e bebida em abundância.

Após um ano de convivência, Tropeço já demonstra superar o que a veterinária disse ser deficiência original (ou desvio de comportamento, não sei). Os relatos de meu irmão são emocionantes.

Quando ele se levanta da cama para ir ao banheiro, Tropeço toma seu lugar. Findo suas necessidades na casinha, meu irmão encontra o gato deitado com a cabeça em seu travesseiro e coberto por seu cobertor. Ele protesta, porém é recebido com desdém e um olhar mudo e taxativo do felino. O gato está enviando-o para a sala. O gato é a representação do divino naquele domicílio agora. Já está recuperado.

Por que escrevi este texto? Bom, para mostrar que com amor e carinho, conseguimos recuperar a essência das coisas. Até de um gato que pensa ser cachorro.

Amor e carinho. Um ambiente feliz e protegido. Cuidados e dedicação.

Até um gato que pensa ser cachorro fica bom. Quem mais não ficaria?

 

Tropeco edt