O bom humor acordou. Está certo que estava um pouco de mau humor. Acordou fazendo bico.

O bom humor, apesar do artigo “o”, deve ser uma entidade puramente feminina, injustiçada pela nossa gramática. Quando ela, o bom humor, resolve se fazer presente no nosso mundo material, incorpora-se nos lábios de uma menina e traz o sorriso mais bonito que já vi.

Às vezes, um sorriso misturado com o bico de mau-humor. Acontece. Aparece. Muda com o andar da vida.

Uma eterna peleja entre o bom e mau humor. Todos disputando uma sesmaria de seus lábios. Mas há sempre um momento em que os músculos relaxam cansados de sua posição de êxtase. Aí o bico, eternamente na espreita de um momento oportuno, domina. Esmaece o bom humor com um pouco de seu antagonista. Sabe que, algumas vezes, até esse bico fica cômico? Talvez a beleza esteja nos olhos de quem a vê. Há dias que nem o mau humor é suficiente para tirar o bom humor das coisas.

Não tem problema. Logo o sorriso volta a brotar fertilizado pela alegria e, nesta transição entre o bico e o riso, vem uma contração das bochechas, um leve aperto nos olhos, uma sutil empinada de nariz. Nunca percebeu?

Este erguer da pontinha do nariz costuma ser seguido por uma discreta e sensual queda das pálpebras. Algo como uma pequena confusão do músculo deste pequeno e tão majestoso detalhe do corpo. Um lapso de tempo é o que separa o abrir do fechar de olhos. Inspirado por esta minúcia, o queixo permite-se um frágil e elegante inclinada. Quase um aviso de consentimento para o mundo espiar.

Perto do ouvido, na divisa entre o pescoço e a cabeça, há uma acanhada porção da pele que logo fica em estado de alerta. Sensível e eriçada, avisa que o bom humor está em casa.

É mais ou menos assim que a vejo, o bom humor.

 

bom humor - dedos edt