Adoro estes vagões sanfonados. Nem sei se é este o nome quando parece que o metrô tem um só vagão ao invés de seis composições. Mas é assim que meu sobrinho de oito anos chama e crianças costumam ver a essência das coisas.

Raramente viajo neste tipo de trem, porém, quando viajo, faço questão de colocar uma perna em cada vagão. Fico ali no meio, entre as composições mesmo. As vezes sou surpreendido com uma curva, o pé direito vai para um lado, o esquerdo, obediente e devoto a inércia,  vai para outro lado, passo um susto e abro um sorriso. Tudo bem, não é bem um susto visto que já esperava por algo assim. Porem divirto-me do mesmo jeito.

Enfim, lá estava eu no meu surfe sanfonado, curtindo as ondas no tubo do transporte subterrâneo quando entrou esta senhora em um dos meus dois vagões.  Resolveu ficar bem ao meu lado. Tirou seu celular de uma bolsa puxada para sacola e sacou a arma de destruição em massa que mais tem aniquilado cérebros humanos: um celular metido a computador. Estava engatilhado um daqueles joguinhos opressores que te fazem negligenciar o mundo à volta. Basicamente ela tinha que juntar três peças da mesma cor e ganhar alguns pontos.

Eu conhecia bem o jogo visto que sofri deste mal há alguns anos. Meio sem querer, quase querendo resolvi espiar a crackuda virtual se divertir um pouco.

Sua habilidade se resumia a apostar na aleatoriedade da vida. Pelo menos foi a minha opinião após alguns segundos. Parecia sempre disposta a desperdiçar oportunidades de juntar quatro peças a fim de agrupar apenas três. E todo mundo sabe que nesse tipo de jogo quem junta quatro peças ganha muito mais pontos!

Fui ficando com raiva, bastante raiva das jogadas delas. Iniciei um dilema comportamental: poderia tomar o celular de sua mão e agrupar as quatro peças verdes, porém, desta forma, admitiria que estava de olho no jogo da mulher e isto é totalmente contra as regras de etiqueta do metrô. A outra possibilidade era me controlar e pronto.

Na quarta partida que esta mulher esbanjou, não me aguentei mais:

_Ah não moça! Larga de ser ruim, não viu as quatro peças verdinhas ali no canto?

Esbravejei muitíssimo irritado por aquele descaso da esportista digital, no caso ela, com a plateia, no caso eu.

Seu olhar de espanto rapidamente alastrou-se pelos dois vagões do meu metrô sanfonado a ponto da única solução ser eu descer na próxima estação.

“Por que, logo ela, quem estava mais focada e próxima, não via o que tinha que fazer”, fiquei pensando, “e eu, um pouco mais distante, possuía total clareza das ações?”.

A reflexão só parou quando o próximo trem chegou. “Droga”, pensei, “este não é sanfonado”.