“Estes dias em Brasília foram ótimos. A esta altura já contei tudo a vocês via mensagem de celular ou telefone mesmo”.

Fiquei pensativa com esta frase escrita em minha pele. O que para a mão que empunhava a caneta é uma simples folha de papel, para mim, a humilde carta, significa um mundo de possibilidades.

Já fui a forma mais rápida de comunicação do planeta. Perdia apenas para sinal de fumaça, despacho de macumba e intervenção divina. Hoje fui ultrapassada em matéria de celeridade.

Mas o que falta em velocidade às cartas, sobra em surpresa. Sobra em consideração. Em capacidade de arrancar suspiros e sorrisos.

Eu, a carta reinventei-me como um instrumento de surpresa. Ninguém espera receber. Enviar toma tempo. Ler? Todos já desacostumaram, mal devem saber abrir um envelope se ele não contiver um código de barras para pagamento ou um pedaço de plástico com promessas de crédito.

Dentro de cada palavra escrita vai um traço do sentimento plantado pelo remetente durante o momento de escrever.

Cada palavra é lida com esforço para entender aquela letra já desgastada pela falta de uso. Tudo bem a caligrafia ser feia desde que exista e seja usada. Quem sabe o tempo não trata de aprimorá-la?

Sabe? Guardo comigo um orgulho. Um pequeno capricho dos anos. Sou a única forma de mensagem capaz de levar o perfume da pessoa amada. Quantas borrifadas de aroma já não senti em minhas páginas de poesia?

Imprimir manualmente uma mensagem é eternizá-la no ato da leitura. Demonstra vontade e dedicação. Quem recebe sente, quem recebe sabe. Apesar de ficar escondida dentro do envelope, vários amigos carteiros já me descreveram o sorriso de destinatário ao receber-me de um remetente querido, distante, ausente ou mesmo desejado. Ah… o carteiro, não seria uma bela profissão essa de levar-me?

É nessa relação de vontade e esforço que uma simples carta se transforma em um sólido tijolo da ponte intitulada “Boa Relação”.

E eu, sendo uma simples carta que sou, não admito comparação com celular nem computador!

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