Abril já se fazia presente nos calendários de mesa quando duas amigas de certa data se encontraram em frente a um comércio qualquer de rua. Belas são as cidades onde amigas, mesmo que não tão intímas, recebem esta aleatória oportunidade de rápida e superficial confraternização ao longo do passeio público. Isto torna a vida tão mais fluida. Tão mais cheia de significado e profunda.

Uma carregava um buquê de flores. A outra uma sacola de compras. As duas com roupa de academia.

_Amiga! Por onde andas? A última vez que te vi era carnaval. Por sinal, estavas linda de odalisca!

_Que nada! Você quem estava deslumbrante de mulher-maravilha. Mas, respondendo a sua pergunta… estou bem amiga… – suspirou a pseudo-odalisca.

Interessante quanto a ausência de palavras pode transmitir quando percebido como estrada para os sentimentos. Chateada, emburrada, mal-humorada, decepcionada, rancorosa ou simplesmente triste? Podendo ser um suspiro de amor, felicidade, paixão ou até a mesma grande e bela saudade. Talvez… uma lembrança de Carnaval?

O suspiro serviu como brilho de uma rara joia para curiosidade daquela  ex-heroína das ladeiras de Olinda. Como um detalhe remanescente de sua fantasia passada, assumiu a postura de destemida e sedenta, e ousou ceder-se ao impulso por mais detalhes daquele pequeno e caprichoso suspiro.

_Que flores lindas você está carregando! Ganhou de um paquera? – Arrodeou o assunto. “Com certeza é dor de cotovelo”, pensava.

_Ai amiga, brinquei o carnaval todo com um homem lindo e maravilhoso. Musculoso, com os braços fortes e mão pesada. Tinha pegada, entende?

_Sim! Você havia me falado. Ele quem te deu as flores? Olha, cuidado viu? Quando homem dá flores é porque ele fez alguma coisa. – Salivou um veneno nunca visto em nenhuma mulher-maravilha, veneno e inveja.

_Não, não. Ele é romântico mesmo, mas … – Murchou a odalisca de carnavais passados. Tomou um pouco de fôlego e continuou falando.

_Semana passada estava entrando no meu prédio e o vi passando por perto. Acenei e fomos conversar um pouco. Perguntou se morava por aqui. Respondi que sim. “E você?”, devolvi. “Que legal, trabalho logo ali”, ele apontou para o cemitério do outro lado da rua. Era o coveiro. Passa o dia cavando buraco. E eu pensei que aquele peitoral era de academia.

_Relaxa amiga, se você morrer já tem quem cuide! – O resto de veneno foi dissipado enquanto um leve sorriso de canto brotava em sua face.

_É, mas agora só fico pensando de onde eram estas flores… – E deixou escapar mais um suspiro de dúvida…

De onde vem as flores