E foi com uma simples pergunta que tudo isto começou: “Vó, por que remoemos o passado?” E ai ela falou tudo isso:

Meu filho, hoje os cafunés não serão de graça. Escute um pouco.

Para mim pelo menos, coisas ruins são como poeira sob a terra. Depois de um tempo, o vento assopra e as leva para longe. Alguns traumas do passado podem ser grandes e pesados. Algumas dificuldades ou algumas tristezas podem precisar de mais do que um simples vento. Mas nunca vi uma pedra neste mundo que não pudesse ser movida pela força de uma enxurrada ou de uma tempestade. Nem que seja uma tempestade cósmica. E olhe que entendo de enxurrada. Lembra quantas vezes reconstruí minha casa?

E ao levar tal poeira embora, deixa apenas a lembrança bela de uma primavera. Não que isso de primavera exista onde fomos criados. Lá ou chove ou faz Sol. E quando chove é com Sol e quando faz Sol pode até chover.

Mas lá existe o Tempo sim. E o Tempo, ao assoprar o pó, deixa a apenas as montanhas. Deixa o sólido. Deixa o que fica sob a terra e provê firmeza a ela.

E se não fosse assim? Bom, seria diferente então. Mas creio que não estaríamos vivos. Acreditamos em um futuro melhor pois já experimentamos a felicidade. Passamos por cima de lágrimas amargas pois plantamos e cultivamos sorrisos férteis. O Tempo nos ajuda a perdoar. Torço para nunca deixar de ser assim.

Então, meu filho, quando você remoer seu passado com “e se fosse diferente” lembre que está pensando apenas nas montanhas que ficaram e não em cada de poeira ou sujeira que existiu. Hoje seu ponto de vista é privilegiado. Aproveite que o vento faz bem seu trabalho de Tempo caso contrário suas montanhas não passarão de arrependimento acumulado na forma de poeira fina.

E poeira, minha criança, pode entupir seu nariz, bloquear sua visão e amargar seu paladar.

Agora deite direito para eu continuar com o carinho.

sobre poeira e montanhas2