Eita que Marinalva já era uma senhora. Dessas bem vividas. Vinha do interior brabo mas sabia ser mansa e cuidadosa. Sua família espalhou-se por ai. A Terra gira e as pessoas caminham. Ela mesmo mudara-se tanto atrás de outras vidas.

Desde cedo na vida sentia uma dor estranha. Durante anos visitou médicos atrás de uma cura mas nunca ninguém encontrou o que a atormentava. De linguajar comum, nunca havia lido os livros de sintomas. Só sabia descrever o que sentia. Nem sabia direito o que era.

Certo dia, um filho insistiu bastante para ela ir conversar com uma experiente senhora que ele havia conhecido em uma cidade perto. Sua experiência vinha da vida mesmo. Fazia parto, dava remédio, curava dor de cabeça.

Se não fosse pela insistência, Marinalva nem teria ido. Mas como pedido de filho, depois de velho, não se nega, foi.

 

Disse “Boa tarde, me chamo Marinalva” para uma sorridente senhora sentada na sombra de um pé de manga. O tempo, claramente, fez estradas em na face da antiga curandeira. Se uma lágrima fugisse de seu olho, facilmente encontraria um canal para seguir até o pescoço. Suas mãos estavam enrugadas pelo Tempo porém amaciadas por tantos bebês que trouxe ao mundo.

Depois da saudação, Marinalva acusou-se “Sabe o que é? Sinto uma dor já tem tanto tempo e, passa ano, só fica maior”.

“E como é isso?”, perguntou a senhora.

Marinalva, então, desatou a falar:

 

“É uma amarração no peito

Um arranhar na unha.

Uma coceira na sola do pé direito.

Uma gastura na palma da mão.

Sensação de coração batendo e batendo.

Um falatório na boca do estômago

Uma ranhura nas bases da pleura.

Zunzunzun no corredor de dentro do ouvido.

Tipo um formigamento no pé de um fio de cabelo do lado esquerdo da cabeça.

Cócegas na ponta da língua.

Tontura na parte branca do olhos.

Pinicação de sobrancelha.

Uma alegria da na perna direita e uma tristeza na esquerda.”

 

“E onde ela é mais forte, Marinalva?”, foi a frase com um tom de intrigada que Marinalva escutou após sua longa descrição. Ela parou, pensou e respondeu: “Normalmente no Aeroporto”.

“Ah! Então não se preocupe. Isso que você sente é simplesmente saudade”.

 

 

arranhar de unha