Fim de uma tarde tímida de domingo. Um frio gostoso o faz procurar o quente de uma coberta. Tons cinzas pincelam o céu e dão um pouco de descanso para o belo azul de outros dias. Não conheço muito de “caras”, mas está na cara que algo bate em seu coração.

Pouco o vejo aqui em casa. Relego-me a um canto da vida. Já o vi mais alegre, altivo. Parece-me que tirou seu carro da auto-estrada rápida da vida e trocou por uma carroça de melancolia pastorando pelas trilhas do pesar. Que exagero, não?

Há alguns dias o telefone tocou. Logo depois do “alô” se sucederam três segundos de eternidade. Foi ali que percebi, algo mudou. Para quem estava acostumado a abrir as cancelas de todo o mundo e domar boi furioso apenas com um “bom dia”, só há uma coisa capaz de abater assim.

Se chama saudade.

Pela sua expressão facial, devia estar doendo mais do que pedrada certeira bem onde a testa faz quina com o couro cabeludo.

Pena, mas não posso abraça-lo. Ou mesmo acariciar seus cabelos. Para quem não sabe, dor de saudade a gente combate com um carinho no pé do cabelo e um cheiro (aquele beijo com o nariz carinhoso) gostoso ao longo do fio. Quando a Natureza fez o ser humano, escondeu acima da cabeça este sentimento único.

Assim a saudade sempre está fora da gente pronta para escorrer pela face. Primeiro chega no olho do desavisado e se transforma em lágrimas. Quando você menos espera, penetra no peito e não larga nunca mais. Nem adianta cortar, cresce de novo. Não quero ser injusto com os carecas, tenho certeza que há uma explicação, porque todo mundo sente saudade.

Ai descobri.

Os dois pequininhos estão indo morar em outro País.

Decidi! No dia que viajarem, me esvaziarei. Até lá vou ficar aqui, no cantinho da sala, respirando e expirando saudade sem fim.

Um dia ele vai trocar a carroça por um avião, quem sabe não volta com outro balão?

(alguns dias antes)

_Boa tarde! Me vê um balão desse do desenho animado.

_É quinze conto.

_Eita cacete! – Assustado, estava com uma nota de dois reais na mão e ainda esperava troco.

Enquanto Tio babão sempre faço os gostos dos meu sobrinhos mas isso não quer dizer que não me espanto com os abusivos preços para produtos infantis. Especialmente os produtos da linha “Tio babão que sempre faz os gostos dos sobrinhos”.

_Olha o palavriado moço, tem criança aqui perto.

Essa foi uma Dona Maria qualquer que me repreendeu. Estava logo atrás de mim na fila (quinze pesetas e ainda tem fila?). Se for para ter cesura, que seja no preço, resmunguei.

_Vai querer ou não? – A pressão vinha de todos os lados, agora era o vendedor que me questionava.

_Vai, manda um, mas enche direito!

_Pronto, está aqui. Deve durar uns 3 dias.

“Tudo bem, eles já pegaram o Visto e ficam até amanhã mesmo, este balão não precisa durar muito”. Foi o que pensei.

Ganhei um “oba, obrigado” pelo balão. Para mim pagou que valeu por muito tempo.

Eu não sabia, mas o danado do moço encheu meu balão de saudade. Ficou trinta dias voando pela sala de casa.

Cheio de saudade