O que é se não a essência da vida em comunidade,  o respeito ao próximo? Seja lá quão próximo ou distante ele seja.

Aqui do alto vejo a falta que isto faz.

A menos de um susto ou outro que levo, pouco me faz diferença. Vivo fora, praticamente a mercê de todos. Mas não cego, e sim altivo e brilhoso lanço meu olhar sobre o cotidiano ao redor.

Ele avança erroneamente, acha que dá, mas não deu certo. Assusta ela e, ao invés de um “bom dia, como estas elegante e bonita”, quem sabe não seria ai o início de um belo romance, xinga e é xingado. O romance dá lugar a um drama sem fim e sem razão.

Esta visão com a qual fui privilegiado me permite ver a beleza de um cantinho de praça com seu banco esbranquiçado. Vazio, evitado pelo barulho das pessoas e coisas que por perto passam. A gritaria aguda sobrepõe-se ao veludo de um sussurar apaixonado. Já foi a época de ser um banquinho para apaixonados.

Ela ia pedir ele em casamento. Engraçado não? No instante derradeiro, belos joelhos femininos prostrados no chão, um moto barulhenta, daquelas grandes, passou e acabou o clima do momento.

Um estrondo me avisa o fim de mais uma vida. Não importa o que aconteceu ou poderia ter acontecido. Ele já não volta mais hoje para casa, ela também não. Tentei avisar, mas aqui do alto, já faz tempo que percebi, meu alerta não passa de um barulhinho constante e despercebido.

De cima contemplo tudo isto. Parece-me filosófico eles, tão mais próximos lá embaixo, ignorarem por completo.

Algo amarelo, praticamente um macha. Rápido demais para descrever, recorta tudo como uma hábil costureira passa sua linha e agulha pelo projeto de um vestido. Nada acontece, a mancha desaparece, ficam alguns olhares assustados.

E, se eu fosse gente, era isto que pensaria. Mas sendo apenas um semáforo, continuo noite e dia, avisando “calma, deixe o outro passar”.

Deixar passar