Ansiava por este dia. Uma meta individual e silenciosa.

Desde sempre, meus treinos eram isto. Treinos. Treinos para algo mais. Não.

Não desejava uma luta profissional. Não desejava lutar. Mas minha meta era treinar com ele. Contra ele.

Dia após dia suei. Estudei cada movimento. Como socar. Como fazer a alavanca com o corpo. Como me defender. Como atacar para me defender. Correr cada vez mais. Esquivar.

Aguentar cada vez mais. Um assalto. Dois. Três. Quatro.

Cada assalto extra é uma maratona. Três minutos eternos. Respirações eternas. Raiva transformada em movimento. Concentração.

Um dia seria chamado para o ringue. Um dia lutaria contra o próprio mestre. Contra o professor. Um dia.

Dediquei os movimentos dos pés. Sincronizei-os com os ombros. Coordeneis meus braços cansados.

Olhos furiosos. Calmos. Dedicados. Focados. Em um treino cheio, apenas enxergava o adversário. Suas luvas. Seus movimentos. Suas fraquezas e seus pontos fortes.

“Você!”, disse. Venha aqui! Foram meses de dedicação para alcançar este ponto. Braços cansados de estar cansados. Respiração treinada. “Venha para o ringue!”.

Subi como um campeão. Como ele ensinou. Olhando nos olhos. Sem medo.

“Jab, jab, esquerda”.

Começara assim. Mais um treino. Seria assim mesmo. Ele nunca abandonava suas manoplas de treino. Seus ataques seriam fortes demais, caso contrário. A despeito da idade. Seriam fortes demais. De qualquer forma, era isto. Sempre com a manopla de treino. Almofadas curtidas por nossos socos.

Primeiro ele avisava. Depois apenas insinuava. Entre os movimentos sincronizados e combinados, variava com um golpe inesperado. “Direita, direita, esquerda, esquiva, gancho”. Tudo certo.

Mas terminava com um golpe na barriga. Na minha barriga.

Era isto que eu queria. Bata, bata forte! Irei reagir.

Reagi.

Outro na face. Não vi nem de onde veio. Protetor no chão.

Fim do primeiro assalto. Fim da primeira sessão de luta.

As semanas seguiram. “Você, suba aqui!”.

Cada dia, dez segundos a mais contra ele, meu adversário-alvo. O treinador. Puro músculo, apesar de mais anos do que poderia contar. Mais décadas em suas costas do que meus assaltos no ringue.

Desferia cada golpe com mais precisão. Mesmo cansado. Exausto. Eu desferia cada golpe com precisão contra ele. Toda a raiva do mundo já não era suficiente para uma boa reação. Fim do segundo assalto.

“Você, continue no ringue!”.

Gelei. Não havia mais forças. Expirei minha última baforada de vontade. Olhei para o chão e fechei os olhos.

Vi o ringue. Vazio. Tenebroso.

Vi o ringue. Como nunca deveria ter visto. Com olhar de perdedor. Com desejo de ser nocauteado para não precisar lutar.

Abri os olhos apenas para confirmar que tudo continuava ali.

“Posição! Levante a guarda!”. Início do terceiro assalto. “Jab, jab, esquerda, esquiva, gancho”.

Na intermitência dos socos de minha quinta sequência ele decidiu que eu estava lento demais.

O golpe preciso com a manopla em minha barriga teria sido suficiente para me derrubar. Mas, como companhia, desferiu uma esquerda em minha face.

Mais barulhenta do que dolorida, é verdade. Mesmo assim, derrubou-me.

Entre um piscar de olho e uma respiração, me vi de joelhos. Lutando contra gravidade para assim permanecer. Primeiro suspiro antes de abraçar a lona.

Pisquei de novo.

Não enxergava nada. Olhos ardendo pelo toque do suor. Pensei em cuspir o protetor fora.

Segunda respiração antes de abraçar a lona.

“Já desistiu?”.

Segurei o fôlego. Segurei o piscar de olhos. Olhei em volta e mordi o protetor. Todos os demais alunos miravam meus movimentos. O professor, meu adversário, matinha sua posição. Seus olhos eram assustadoramente calmos.

Pensei em meu adversário.

Terceira respiração. Não aguentava mais. Ele era forte demais, rápido demais, resistente demais para mim.

Quarta respiração.

Foi um breve momento de clareza. Reposicionei meu adversário.

Fui inocente.

Finquei um pé no chão. Apoiei meus braços.

Quinta respiração. “Vamos, não tenho a noite toda!”

Encontrei um último fôlego, Deus sabe onde, e levantei ainda com as pernas tortas.

Durei mais dois assaltos.

Recordo-me de poucas coisas antes de ser nocauteado naquele dia.

Lembro da água gelada em minha cabeça. Lembro do protetor bucal no chão.

Lembro do sorriso em minha face e na do professor.

Ele nunca fora meu adversário.

Lembro que não senti dor no outro dia. Apenas alivio.

“Nunca mais deixe você mesmo se nocautear. Isto é dever do outro lutador”.

Com isto, ele terminou a aula.

treino editado