Dorotéia era uma pizza que estava morando em minha geladeira. Acabei jogando fora quando desconfiei que ela estava de saco cheio da morada. Creio que foram umas 5 semanas naquele CEP.

Marta, uma vizinha da prateleira de cima, já dominava a área há algum tempo. Era um ser complexo, com uma profundidade psicológica multidiversificada. Ou seja, uma cebola e suas várias camadas.

Já Tobias, este é um fanfarrão. Gordinho, rechonchudo como ele mesmo. Costumava passar o dia com um sorriso amarelo estranho. Hoje já está meio desgastado, puxado para o marrom. Nunca descobri que variedade de Melão ele é, mas que é um Melão, tenho certeza.

Seu Constantatino, o pimentão murcho. Já foi verde, já foi vermelho. Agora vive amarelado, meio adoentado, o bichinho.

Maristela, a manteiga que ninguém sabe a idade e mente o peso. Tenho pra mim que ela é uma margarina. Sem sal, ainda por cima. Seu Constantino jura que provou e acusou-a de estar além do prazo de validade.

Pierre, um vinho que só reclama da vida. Azeeeeeeedo feito suco de limão passado. Rabujento como ele mesmo, não deixa ninguém tocar em uma rolha. “É cortiça original, nada destas porcarias sintéticas de hoje em dia” – comenta solitário.

Falando em limão, tem a gangue o azedume, um saco cheio de limões. Repousam no fundo da gaveta de frutas e verduras.

Na prateleira do meio, mora um troço preto dentro de uma barraca (cumbuca) que não fala com ninguém e ninguém sabe o que é. Já marquei com um padre exorcista. Só com água benta para remover esta entidade.

Cada um em sua prateleira ou gaveta.

É… geladeira de quem mora sozinho é assim mesmo, ou os vizinhos confraternizam ou apodrecem de tédio.