Meu amor, o que você tem aí, escondido?

Sempre era assim que minha Mãe me recebia quando eu realmente escondia algo.

Uma vez, foi um passarinho com sua asa esquerda machucada. Fui eu o culpado. Mesmo criança, mesmo assim, não consegui deixá-lo. Havia jogado uma pedra nele por diversão. Talvez por maldade… Não, não… foi por ser criança mesmo. Assim, Odorico entrou para nossa Família. Verdade que, pouco tempo depois, ele fugiu quando a asa esquerda ficou boa. Talvez um pouco antes. Acho que ele já possuía sua própria família. Sua mãe deveria estar preocupada. A minha estaria.

Filho lindo, o que você tem aí, escondido?

Desta vez foi um boletim avermelhado, parecendo que estava machucado de tanto puxado para o vermelho. Fiquei com medo da bronca e resolvi esconder. Não queria enfrentar o olhar de desaprovação ou tristeza que já havia presenciado outra vez. Fiquei de castigo. Duas semanas fazendo a tarefa todos os dias, à tarde, com ela.

Filho querido…

E como tantas outras vezes ela sabia que escondia algo. Bastava entrar pela porta, fazer um pequeno barulho com os pés. Ou talvez o jeito de girar a maçaneta. Nunca soube como. Às vezes era um bicho que pegava na rua para criar, outras foram feridas de alguma briga ou trela na escola.

Inúmeras vezes foi algo invisível ao olhar que tentava esconder: a frustração de perder minha melhor bola de gude no desafio do recreio, a confusão de crescer, uma amizade desfeita, um coração partido. Às vezes, uma decepção ou felicidade ocorrida pela primeira vez, a qual buscava, inocentemente, inutilmente, esconder apenas para mim.

E foram tantas vezes que ainda hoje penso nisso. Lembro-me até do Odorico. Lembro-me de outras situações e, apesar de distantes do presente, recordo-me de todas. Um dia ainda vou descobrir como ela descobria tudo.

O que escondes ai