Vou te dizer algo. Banheiro de rodoviária só não é pior do que banheiro de ônibus porque está parado. Somente quem se aventurou pelas rodoviárias deste país sabe do que estou falando. Mas não tinha jeito. Fui visitar meu irmão em Caruaru, e agora era encarar o fétido toalete fixo ou o equivalente do ônibus de volta.

Poltrona 09. Acomodado, restava-me observar os demais companheiros desta curta viagem entrarem no ônibus. x

_Ô, Gerusa! Boa viagem, mulher! Eita, licença aí, viu?!

O marido da moça sentada da cadeira 25 entrou com ela para dar um beijo de despedida e agora precisava sair do veículo. Desnecessário dizer que ele precisou empurrar (ou “dar uma licencinha”) muita gente antes de sair.

_Marieta e Matilde, se aguentem aí, que sua irmã Mariella quer durmir. – Esbravejava a mãe da 07. Suas filhas gêmeas brigavam ao lado da mais nova, pois as três ocupavam apenas duas cadeiras.

Apesar da confusão, a história toda se mostrava muito divertida, especialmente porque viagem de ônibus costuma ser bastante chata. Então, dois senhores permaneciam de pé ao meu lado, aguardando uma oportunidade de guardarem suas mochilas.

_Desculpe a expressão, mas o Prefeito era tão apegado ao Governador que se atirasse no saco do Governador acertava na boca do Prefeito.

_Mas você vai votar nele?

_Claro que não! Sou doido, mas não sou maluco.

_Mudando de assunto… por que você se separou?

_Aaaah, meu amigo. A liga de um casamento é o sexo e eu estou há mais de cincos anos sem isso. A desgraçada reclamava que não tinha banheiro no quarto. Construí uma suíte. Reclamava que tinha vergonha de fazer perto dos filhos. Mandei tudinho passar o fim de semana na casa dos parentes. Quando não tinha mais o que reclamar, na hora de esquentar as coisas, começava a falar da mãe, aquela véia chata. Não tinha santo que ficasse de pé. Separei!

_Olha a pipoca!! Quente, com sal e manteiga. Tem doce e a famosa pipoca de isopor!

_Quem vai querer? É a melhor tapioca de Caruaru. Ou pelo menos a última. Quem vai querer?

_Água! Olha a água geladinha. Bora, que a viagem é longa e dá sede descendo a Serra!

Não havia comissário de bordo, então os vendedores se alternavam calmamente dentro do ônibus. Um só subia quando o outro percorria todas as poltronas, passava troco e descia. Eventualmente apareceu um fiscal da empresa e a mãe da Matilde foi logo perguntando:

_Moço, esse é o meu ônibus?

_Não, minha Senhora, – falava sorridente – esse ônibus é o da empresa.

_Deixe de ser abestalhado seu desalmado – retrucou a senhora sob os risos de extensa prole – quero saber se é o executivo ou o parador!

Foi de um bom humor que nunca vi em nenhuma companhia aérea. O cardápio também era bem variado. De qualquer forma, quanto mais vendedor entrava, menos vendia. Parecia lógico para mim, afinal, eu já tinha um saco de pipoca, uma garrafa de água e meia tapioca. Mesmo assim, o rodízio rodoviário não parou.

_Miiiiiii!!!! Miilho Quentinho!!! Eita, que tá quente! Bora comer milho minha gente! Quer sal, moça? – Acho que acabou vendendo um.

O sistema de controle de embarque era um pouco menos sofisticado do que o leito de código de barras aeroportuário. O fiscal ia passando e todo mundo mostrava a passagem. A medida que ele confirmava o assento, furava seu número na cartela da viagem. Uma espécie de bingo dos cobradores. Tenho para mim que, no final do dia, quem tivesse uma cartela completa ganhava uma tapioca.

_Bora jujuba! Água, coca, bora!!! Água de coco!!!

Quando eu menos esperava, surgiu este último vendedor de jujuba. Comprei duas. Para melhorar, percebi que sentei na cadeira de emergência e ninguém me deu instruções. Acho que, na hora do aperreio, o procedimento é auto didático.

Quando subimos em um avião, me parece que ligamos dois pontos tão desconexos, tão descontínuos. Passamos tanto tempo acima das nuvens e esquecemos que as cidades não começam no aeroporto.

Esta última viagem pela estrada lembrou-me de todo o mundo que existe entre lá e cá.

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