No que tanto penso em escrever quando não vem nada à cabeça? Investigo todos no vagão à procura de um bom e fácil mote. Nada feito. A maioria está imersa em seus celulares, zumbis digitais.

Alguns poucos conversam alto, porém palavras sem sentido para mim. Uma moça lê sua revista, mas a matéria não parece ser muito interessante. Pessoas sobem e descem em cada estação. Costuma haver interesses de dois grupos de pessoas em jogo neste momento: os que entram e os que saem. É assim a guerra na porta do vagão do metrô.

Há uma menina bem bonita, com uma tatuagem que me parece de algum alfabeto do sul-asiático. Não só não sei, como nunca saberei. Outra mulher abriu um pacote de jujuba. Deu fome. Dois bêbados jogam uma espécie de porrinha no fundo do vagão. Não consegui entender a regra que usavam, mas se divertiram por quatorze estações. Alguém comenta perto de mim “eles incomodam, não é?”. “Que nada!”- respondeu um terceiro, “pior sou eu que estou peidando desde que embarquei e ninguém reclamou”.

Minha caneta está chegando ao fim. Pensei que ia durar pouco, mas até que rendeu bastante. Pena que ela é cara, os olhos da cara. Já comprei duas novas no mesmo estilo, mas dei de presente para minha cunhada. Acho que caderninhos de escrever e canetas são bons presentes. Pelo menos para mim. Pelo menos por enquanto.

Este que escrevo ganhei no Natal passado. Veio em um conjunto de cadernos reciclados. Presente do meu irmão segundo mais velho (ele vem depois do mais velho, mas não é o do meio). Foi um bom presente. Usei bastante. Estas palavras foram escritas no terceiro caderno e, agora, resta apenas um em branco, ou em amarelo, não sei…

Às vezes entro em uma competição comigo mesmo para ver em quanto tempo consigo completar as páginas de um caderno destes. Meu recorde atual é um mês. Porém, isto é uma besteira, não adianta ficar cobrando “produção” de mim mesmo em um hobby. Tem dia que amarro o jegue na cerca do cansaço, oblitero a imaginação ou a inspiração com uma película opaca.

Se as palavras são grávidas de significado então inspiração é tipo a menstruação da primeira namorada adolescente: só aparece quando quer, mas quando vem é uma benção.

É preciso estar de coração aberto e caneta preparada.

Sobre o que escrever