Certa feita ocorreu que ele andava um pouco irritado. Apesar de sempre adorar viver em sociedade, tinha que admitir, às vezes a sociedade é um tanto quanto difícil e amarga para se gostar. Assim, seu humor subia e descia as ladeiras da cidade, às vezes virando em esquinas de problemas e angústias. Dependendo da vizinhança, “impossível” costumava ser a melhor descrição para a tentativa de estacionar, parar um pouco e esperar o turbilhão passar.

Costumava enfrentar um trafégo. Mas sentia-se refém do tráfico de tempo. Ou da perda de tempo. Quando mais queria essa riqueza, o tempo, menos possuía.

Desta forma, algumas terças foram virando segunda, depois foi a vez das quartas se transmutarem em típicas segundas. A coisa foi evoluindo, até que a própria segunda-feira virou ela mesma. E nada, ou melhor, tudo, o tirava do sério.

Era comum passar logo. Porém, parecia que o sistema de escoamento do vil fluido negro que percorria as galerias de seu temperamento não estava mais dando conta do volume pluvial de mau-humor. Aquelas segundas-feiras, desta vez, demoravam a ser esquecidas e ultrapassadas. Parecia que haviam jogado muito entulho na rua do seu destino e, agora entupidas, as vias tardavam a purificar o ambiente.

“Bom dia”. – “hum…” – “nossa, como você está mal-humorado”. – “saco

E por aí ia. Ficava bem insuportável. Até para si mesmo. O fluxo da vida não avançava. Todos os sinais ficavam vermelhos alguns segundos antes de atravessá-los.

Começou, então, a fazer algo irreconhecível.

Buzinava. Buzinava sempre palavras de derespeito quando algo ou alguém ultrapassava em sua frente. Considerava uma violação de seu direito máximo de seguir na mesma direção, do mesmo jeito. E do som partiu para gestos. E dos gestos para ação.

Eram sete desgraçadas segunda-feiras todas as semanas. Passaram a ser violentas.

Difícil e amargo viver assim, não?

Um sábado-segunda-feira estava esperando (odiava filas, odiava esperar) para entrar em uma festa. Lugar popular, populoso, calçada larga, mas a maioria das pessoas estava na fila ou lá dentro.

Alguém esbarrou nele. Se tivesse um radiador, este teria fervido na hora. Humano como era, restou ferver o sangue. Veja bem, nunca fora de seu feitio, mas cerrou os punhos. Dizem que um anjo aportou em seu ombo na hora, outras pessoas juram ter visto um palhacinho do Detran, daqueles que ficavam zombando dos motoristas que avançam na faixa de pedestre. Em algumas cidades estes palhacinhos fizeram mais efeito que um caminhão de multas. Talvez no bolso até doa mais, porém acho que é no orgulho que a ferida demora a cicatrizar.

Seja o que for, virou,  “senhor, por favor se afaste” e teve pena do moço embrigado, algumas décadas mais velho, claramente decrépito e solitário. Um calhambeque esquecido à procura de um ferro-velho.

E o “senhor” voltou a esbarrar. E o radiador ferveu. E o palhacinho posou de novo.

“ic… eu sou das Laranjeiras, sou mais…ic, você se acha melhor que eu?? Ic… se acha??! Ic…”. Laranjeiras era uma vizinhança com IPTU mais caro do que aquele que estavam, mas, aparentemente, nem por isso merecedor do adjetivo nobre. Ficou se perguntando como aquele moço conseguiu chegar ali tão bêbado.

“Hunf” e um longo suspiro. “Senhor, não me acho melhor que ninguém. Se quiser, pode ficar aí, mas não esbarre mais, certo?”.

E, mais uma vez, o sinal vermelho não foi respeitado. Dessa vez o palhacinho não apareceu. Deve ter ido ao banheiro.

Aí, o radiador ferveu. O punho cerrou e o mundo calou.

Pegou o calhambeque pelo braço e o rebocou até um canto da calçada. Ao olhar para o lado, notara no retrovisor, como se pessoas tivessem retrovisores, que todos os espreitavam.

Nos três segundos que sucederam, teve tempo para pensar por uma eternidade. Não queria bater. Provocar mossas e amassados ia contra seus principios. Mas precisava fazer algo.

Achou uma vaga e parou no meio-fio. Olhou bem nos olhos do triste infeliz.

Não pensou. Apenas fez.

Girou-o. Fez o ébrio girar em torno de si mesmo três ou quatro vezes. E depois o soltou.

Ao invés de calhambeque, ele pareceu um carrinho de plástico daqueles que dávamos corda na infância.

Saiu cambaleando na direção oposta, dedo em riste e exclamando “vou te…ic… mostrar quem é o melhor…ic..” na direção de um poste ali do outro lado da esquina. Coitado do poste. Não fez nada e, na melhor das hipóteses, vai ser urinado.

Quando voltou, todos estavam rindo. A tensão havia sido desfeita. Parece que o tonto inoportuno carregara a segunda-feira para longe também.

Mais tarde, ao voltar para casa, encontrou uma mensagem. Era um velho e sábio provérbio chinês. Dizem que é velho o suficiente para ser sábio e sábio o suficiente para ser chinês. E, só por isso, já merece crédito. Como quando escrevemos qualquer coisa em itálico só para parecer latim. Qualqueres coisus.

Dizia assim:

“Somente quando um mosquito pousa em seu testículo que você se dá conta que sempre há uma maneira de resolver um problema sem usar violência”.

E no final, estava assinado: o palhacinho do DETRAN.

turma do fomfom – Lailson