A lembrança do que não foi, ou do que poderia ter sido e nunca mais será, invade minha memória de uma forma que nenhum passado concreto poderá entender.

Outro dia desses estava conversando com uma amiga sobre meu fim de semana. “Ah… Fiquei bem chateado. Queria ter conversado com meu irmão e ele passou dois dias de ressaca.”

E lá vem mais um passado não acontecido para amargar o doce sabor do que poderia ter vindo a ser.

Não vamos pôr a culpa sempre no licor dos risos, no lubrificante social, como é conhecido assim o elixir etílico. Minhas casas são recheadas de quase-memórias. Bem mais novo, inventei alguma brincadeira de ver quem rodava a mochila mais rápido na sala de casa. Não lembro quem venceu a competição, mas eu e meu irmão ganhamos um bom castigo por termos quebrado um par de jarros (por sinal, este já foi um dos milhares de apelidos gêmeos que recebi, par de jarros). Coitados, eles tinham uns 16 anos na época e eram uma lembrança de alguma comemoração dos meus pais. Hoje suas não existências lembram-me das consequências inexoráveis da inércia.

É neste mundo, onde qualquer coisa pode ser dividida em dois conjuntos: tudo o que é e tudo o que não é, onde vivemos. Mas a sensação do que “não foi” parece ocupar muito mais espaço do que qualquer realização que venha ter sido. A memória parece se inspirar nos átomos, onde há muito mais vazios do que elétrons ou quaisquer outras partículas. Existem muito mais vazios. Muito mais possibilidades.

Uma mistura de lembranças e desejo de lembranças. Uma batalha injusta, visto que as possibilidades sempre somam mais do que as realizações. Uma guerra que apenas pode ser vencida na base da autoconfiança do resultado. O “hoje” é sempre melhor do que o “ontem”, pelo simples fato de existir. Mas as faltas de hoje nos remetem ao passado como âncoras aportam um navio. Uma cadeira vazia, uma cômoda sem porta-retratos, um banco de praça desocupado. Uma questão errada na prova. Um lugar não-visitado. Um lugar que já foi visitado.

A despeito de tudo, o futuro sempre vem vindo para concretizar algo. Este futuro… tão inexorável em sua chegada quanto a certeza de que faremos escolhas. Este futuro tão poderoso em sua mágica, capaz de tornar todas as possibilidades em apenas um presente, em apenas um instante. E, quando ele chega, relega as infinitas alternativas, que nunca ocorrerão, ao vazio da lembrança do que poderia ter acontecido.

No final da conversa, a amiga do início do texto falou-me “agora vocês vão rir muito mais se lembrando do fim de semana que marcaram de se ver e não conseguiram por conta da danada da cachaça”.

Um brinde a quem sabe transformar o vazio do não existir em um sorriso completo e concreto.

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