_Calma, calma! Mas já faz tempo que não bebo…

_É, mas você está bebendo desde a semana passada!

_Também não é assim… Brrrrrr (arroto).

_Ele morrendo e eu ficando vivo, o que me importa? Sobra mais mulher. Não que eu queira isso.

_Isso o quê?

_Que ele morra.

_Porra! Você postou essa foto? To com uma cara de mané!

Conversar típicas do bar onde estava. Eventualmente tenho o péssimo hábito de chegar na hora quando marco algo com alguém. A consequência natural disto é ficar esperando. Um pouco de Teoria dos Jogos explica. “Ele vai atrasar mesmo, vou atrasar também”. O problema todo é quando “ele” não atrasa. Pior ainda, quando o “ele” sou eu. Daí, só resta buscar distração na fauna e flora local. Sempre tem algo de interessante para anotar no meu caderninho.

Havia um bêbado engraçado por perto. Ainda era muito cedo e o coitado deve ter queimado a largada, estava mais leve e alegre do que todos seus os colegas. Sendo assim, ou era prontamente ignorado ou alvo das brincadeiras iniciais do dia.

_Vai chover… – proclamava o pinguço

_Cala a boca, bebo! Quem fala, chama! – Exclamavam seus amigos, já rindo. Apesar disto, o bar não possuía teto, era a céu-aberto…

Neste momento, apareceu um mico no fio do telefone, todos olharam para macaquinho. Logo foi acompanhado por mais um, dois, cinco, dez! E começaram a correr de um lado para o outro. Para a alegria geral do bar, estavam brigando. Sempre que um perdia o embate e era arremessado para o chão, todo o público do Coliseu gritava de alegria. A esta altura, o modesto bar já havia se tornado uma arquibancada, os fios dos postes foram transmutados em uma arena símia. Alguns modestos gladiadores começaram a correr de um lado para o outro, pulando e se esquivando das agressões dos demais campeões.

_ Com certeza, isso é por causa de mulher – Anunciou, novamente, o colega cachaceiro, extraindo risadas de todo mundo.

Tão natural quanto a briga foi o início das apostas. Alguns apostavam no sagui com uma lista preta nas costas, outros no que parecia ser o maior. Foi aí que o bêbado abriu a boca e falou:

_Eu aposto no fio desencapado.

Prontamente ignorado. O nível de sobriedade geral os apostadores os impediu de vislumbrar a real profundidade do comentário etílico. No fundo, o colega ébrio estava falando sobre a vida. Não importa tanto o porquê da sua briga ou contra quem ela é. Se estiver  em cima de um fio desencapado, todos vão perder. Assim é a vida, às vezes nos preocupamos com coisas pequenas quando o que realmente pode nos afetar é deixado de lado.

Felizmente, o macaquinho-alfa venceu a briga antes da eletricidade. E todos voltaram para as conversas usuais.

_Essa corrupção hein?

_É camada, não é? A corrupção está em todas as camadas!

_Pois é, só estou achando ruim porque não faço parte de esquema nenhum.

_E tua irmã?

_Caiu na real. Está trabalhando e vai voltar a estudar. Mas não largou o idiota.

Alguns segredos escapando através da língua já lubrificada pelo álcool.

_Não, não se preocupe. Isso não conto para ninguém (nem eu!!).

Foi então, após o segredo revelado, que começou a chover. Consegui abrigo fácil embaixo de uma árvore. Procurei o bêbado-filósofo, porém apenas encontrei os colegas molhados dele. Da próxima vez acho que vão escutar mais os conselhos de quem afogou as amarras da vida em álcool e tomar cuidado com os fios desencapados.

macaco