(Cuidado! Primeira parte em: https://aquelecaminho.com/2014/10/25/a-eleicao-campanha-eleitoral/)

Declararam luto oficial na véspera da eleição. Vespeta, o cachorrinho do 205 e Ornitorrinco, o gato preguiçoso do 708, foram encontrados mortos. Cada lado do sufrágio pôs seus dedos em riste, acusando os opositores de assassinar friamente seus respectivos mascotes.

Tenho para mim que o responsável foi o Micael do 101. Pense num menino treloso. Treloso e ruim. Aproveitou a confusão geral e operou suas maldades contra os inocentes bichos. Seus pais eram locatários, portanto não votavam na eleição.

Enfim, chegou o dia da eleição.

O Zé se autodeclarou presidente supremo do sufrágio comunal. Sob a justificativa de inovação e de tornar o pleito transparente, arrumou duas urnas eletrônicas lá no Tribunal Eleitoral. Chamou também o Jeremias e o Rambo, dois PM’s do batalhão do bairro para garantir a segurança comunitária. Até gostei da ideia da urna, aprecio aquele barulhinho (tri-li-li-li). Mas reclamei do exagero de chamar a polícia. “Visto a escalada de violência dos últimos dias, que culminou no triste infortúnio altamente lamentável de dois integrantes de nossa estimada sociedade, optei por garantir a paz no nosso, pequeno em tamanho porém imenso em importância, sufrágio eleitoral. A flâmula da paz reinará por aqui!”

Dormi no meio da frase, porém o despertei no ” A flâmula da paz”, achei bastante digno. De qualquer forma, concordei por educação e fui votar.

“Título eleitoral e comprovante de quitação bancária, por favor.”

Achei ridículo. Mas decidi obedecer, afinal, a flâmula da paz deveria reinar e o próprio Rambo estava ali para assegurar isto.

No final do dia veio a apuração. Zé, o presidente do supremo tribunal eleitoral do condomínio (seu mais novo título) reuniu a todos e começou um discurso digno de um excelentíssimo senhor de toga. Falou do recorde de participação e tempo de apuração. Fez um breve lamento seguido de oração pelos mártires da democracia, Vespeto e Ornitorrinco e agradeceu o apoio das autoridades presentes (Jeremias e Rabo só perceberam que eram eles por conta de uma cutucada).

Deu seu Silvério na cabeça. 75% dos votos válidos.

A meninada começou a gritar. Havia os que apoiavam o síndico reeleito, mas a maioria estava era mangando de dona Quitéria mesmo. Certa da vitória, mandou trazer um caminhão de docinhos e salgadinhos. Havia até consertado o carro, o que não me deixou dúvidas de qual seria seu primeiro ato caso vitoriosa.

Acontece que no dia anterior ela havia encomendado uma pesquisa boca-de-urna ao Paulinho Pinote, filho do morador do 707. Diziam que o menino era discreto e bom de conta. Na verdade ele era bem esperto mesmo. Sabendo das extravagâncias de dona Quiqui, fez a pesquisa mas resolveu predizer uma vitória esmagadora para a oposição já prevendo a festança.

Os brigadeiros estavam ótimos de verdade.

Eu até que gostei da eleição. Acho divertido usar a urna eletrônica e confesso que me diverti bastante com as traquinagens da meninada. Porém o futebol de quinta-feira acabou. Acontece que Paulinho esqueceu seu caderno de apuração com o nome e intenção de votos de todos na portaria. Seu Silvério não quis mais que o João, do 107 apitasse o jogo. “Parcial demais”.

Também não é certo, mas acho que este ano não teremos festa de Natal. Falta clima.

Por sinal, dois meses depois saiu o resultado da auditoria: as contas bateram 100%, mas tivemos que fazer uma cota extra para pagar a empresa.

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