Tudo começou com um desagrado entre Silvério, o síndico, e dona Quitéria do 508 que de quieta não tinha nada. Acontece que Quiqui, carinhosamente apelidada por seu marido, queria a vaga de carro vizinha a sua. Nossa micro-comunidade possuía poucas e insuficiente vagas. Havia algum tempo decidiu-se fazer um rodízio, porém a Dona Quitéria inventou de comprar um carrão gigante, daqueles de carregar boi e sempre arranhava-o ao manobrar.

Seu Silvério nunca fora conhecido pela sua paciência com reclamadores e respondeu Quiqui (dizem! eu não estava presente) da maneira mais odiosa e solene possível: apenas virou as costas, voltando-se para dentro de sua humilde residência.

Nem tiro sua razão. Seu Silvério devia estar no seu pijamão listrado, pantufa amaciada pelo tempo, sentando em sua poltrona curtindo o último vinil do Lupicínio Rodrigues quando a doida da vizinha berrou (Quiqui nunca foi muito afeiçoada com as campainhas do apartamento).

Pronto. Foi o suficiente. No outro dia formou-se uma chapa que concorreria nas próximas eleições marcadas para daqui a um mês.

Pense num ar que seu Silvério pegou. Acontece que Dona Quitéria articulou todos os moradores da coluna 7 e 8. No outro dia, o síndico anunciou sua campanha para reeleição. Ele ficou bastante decepcionado com o povo da coluna 7. Jogavam bola toda quinta-feira, não esperava tamanha “safadeza e ardilosidade”, em suas próprias palavras. Os da coluna 8 nem tanto, esses costumavam atrasar bastante o condomínio. Não que seu Silvério fosse um cobrador muquirana, na coluna 1 havia muita inadimplência também e ele não se irritava. Mas “o povo da 8 vive trocando de carro todo ano. Assim é muito fácil deixar de pagar”. Era assim que ele me falava quando encontrávamos no estacionamento dos carrinhos de feira.

O circo pegou fogo quando o Ítalo do 301 imprimiu um anúncio de venda de caminhão Scania com os dizeres:

AGORA EU QUERO VER QUANTAS VAGAS VÃO ME DAR!

Na mesma hora, Maria Josefina do 308 lembrou da nossa última festa junina, onde Ítalo dançou com Cristina, a neta do Seu Sílverio. “Isso é uma quadrilha!!!”, esbravejou a fofoqueira de boa memória.

Pronto, depois da história do caminhão, foi uma enxurrada de denúncias. Eu, particularmente, achei a foto da Scania de Ítalo a melhor, mas devo admitir que o Joãzinho do 708 fez uma caricatura do síndico imitando o Rei Luis XIV da França que ficou massa. Até seu Silvério riu. Faziam alguns anos que o seu último fio de cabelo partiu com o vento e, ao se ver com uma enorme juba real, chegou a esboçar uma lágrima.

Pediram-me para ser da comissão eleitoral. Até tentei recusar: “minha gente, para que tudo isso? Temos outros problemas, ano que vem é troca das pastilhas”.

Em vão. O zé do 103 aceitou. Visto as denúncias de rombo e evasão fiscal, tivemos que contratar uma firma de auditoria independente. Dessa eu não escapei. Tive que fazer cinco cotações e acompanhar o serviço. Deveria ter sido apenas três cotações, porém descobriram que a primeira vencedora possuía um sócio formado na mesma escola primária de Constantino, o primo distante de seu Silvério, que há muito mudara-se para São Paulo. “Isto é conchavo!”, gritava Dona Quitéria no meu pé-do-ouvido. Preferi desistir de explicar a ela que ambos se formaram com dez anos de diferença. Cotei mais duas. O relatório final só sairia dois meses após o intento eleitoral. Esta notícia desagradou todos e foi o suficiente para picharem a porta do 602 com palavras que não ouso escrever e uma tentativa de desenhar duas bolas de futebol e uma estrada (não entendi direito). A obra ficou incompleta. O garoto foi pego em flagrante. Fiquei com pena dele, além de pintar a porta teve que pedir desculpas para Dona Zuleide, a moradora do 602 e vizinha do Seu Silvério. Burrinho o menino.

Dai, o mesmo aconteceu com Tobias, o neto do síndico. O menino estava passando as férias na casa do avô e, do alto de seus sete anos, decidiu cobrar vingança com um belo “Abaixo a Burgues…”. Coitado, também foi pego em flagrante antes de finalizar uma obra-prima de revolta juvenil. E lá foi mais uma lata de tinta branca. O dono do armazém da esquina me confidenciou “vendi tanto os sprays quanto as latas de tinta. Por mim essa eleição poderia durar o ano todo!”. Justo.

(continua amanhã)

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