Um estranho em sua própria casa ou uma estranha casa em seu próprio eu.

Foi nessa dúvida que ele estava após meses viajando. Morava sozinho, mora ainda, vamos pôr verbos no tempo correto. Sentado no sofá, admirando o silêncio da sala com sua nova impessoalidade inexistente antes da partida e do regresso. Algo estava, está diferente. O sofá não parece mais ser tão receptivo. Também aquelas paredes, que já testemunharam tantas coisas, impunham um silêncio estarrecedor ao ambiente.

Tudo permanece no mesmo, exatamente no mesmo lugar de meses atrás. A negra camada de poeira denuncia o passar do tempo e sua constante insistência em soterrar o presente para que este não atrapalhe o caminho do tão esperado futuro.

Sentia-se um caldeirão de sentimentos apoiado no sofá. A próxima prova do sopão de pensamentos veio com um gosto um tanto estranho: foi capaz de distinguir uma pitada de espanto ali no fundo da colher.

Estava abismado.

Levantara do sofá para beber um simples copo de água. Esquecera onde os copos repousam. Percebeu que nem dos talheres, igualmente, sabia. Remexeu sua memória, andou aleatoriamente pela casa. Encontrou copos, facas e garfos. Exatamente no lugar onde deixara há tempos atrás. Havia apagado da memória de uma maneira tal que tudo lhe parecia inexplicável. Era um estranho em sua própria casa. Era um estranho em suas próprias memórias.

Foi mapear o resto daquele domicílio. Era preciso se encontrar. Dirigiu-se ao quarto. A noite já se fazia presente e tudo estava escuro. Ousou, mesmo assim, e insinuou-se para dentro do cômodo. Dobrou o braço direito e pressionou o interruptor. Mas nada acontecera. Olhou para trás e percebeu seu erro. Não havia interruptor. Pensou que o botão, aproveitando-se de sua demorada ausência, maquinou e executou uma fuga para longe de uma realidade de abusos físicos diários. Tinha por hábito apertar o danado forte. Deu dois suspiros. Um de arrependimento pelos maus tratos e perda de tão funcional objeto. O outro suspiro foi de senso de ridículo. Interruptores não fogem e nem reclama de mal tratos. Olhou para a esquerda e lá estava o ser inanimado. Quieto, reposando em sua morada.

Veio um terceiro suspiro. Um suspiro atônito. São nos detalhes que o verdadeiro significado das coisas esconde-se. Pensou. Leu isto em algum lugar. Tal movimento era mecânico. Executado centenas de vezes, milhares até. Fazia anos que tinha aquele cômodo como seu repouso. Mesmo nos dias que chegava perfumado da porção do sorriso, cambaleante e exausto, sempre foi capaz de tomar um banho, ligar a luz e desligá-la. Nem sabia como fazia isto, mas era algo tão arraigado em sua mente que não precisava nem pensar. Havia esquecido. Talvez uma mensagem do subconsciente. Na maioria das vezes, este “eu profundo” percebe nossas necessidades muitos antes de nós (seja lá o que “nós” seja). E, neste jogo de prioridades, o subconsciente decidira apagar todos os movimentos mecanizados, todos os movimentos automáticos guardados em uma das várias caixas de ferramentas mentais.

Ele se sentia um estranho em sua própria casa. E, por mais inusitado que seja, sua casa não havia mudado nada. Apenas uma coisa parecia não se encaixar mais naquele cotidiano.

Um incômodo nos cômodos da casa.

Depois daquele tempo afastado algo mudou. Entrar naquela casa era como voltar ao passado. Um passado recente, mas um passado distante em termos de sentimento. Muita coisa mudou nele, pelo visto. E, abrir a porta e entrar, já não era tão simples, já não era tão direto. Talvez já não fosse tão necessário.

Resolveu se mudar.

E foi-se para outro lar.

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