Aprígio chegou ao hangar tranquilo, como quem foi ali comer um misto quente na padaria. Até sabia o que o esperava, ou imaginava saber.

Algumas coisas, simplesmente, sempre estiveram completamente fora do script de sua vida. Por exemplo, nadar com tubarões. Tem gente que adoraria ter essa experiência, porém possui dúvidas quanto à segurança, possuem medo, possuem certos receios e não decidem se irão executar a cena de adrenalina ou deixar para a próxima encarnação. Aprígio não era uma pessoa deste tipo. Ele simplesmente riscou do roteiro algumas cenas. Principalmente estas de ação e aventura que desafiam o limiar do bom-senso ou as habilidades naturais que a evolução concedeu aos seres humanos.

Conversara com alguns colegas e, por acaso do destino ou um capricho omisso de suas decisões, contratou um pulo de paraquedas. Assim, pesquisou, sentiu confiança, ligou e marcou. Um belo sábado de manhã estava planejado pelos céus para o dia.

No dia anterior saiu, bebeu um pouco, conversou com os amigos. Foi dormir mais ou menos na hora que se espera dormir quando se sai com os amigos. Acordou tranquilo. Tomou banho, café e tudo mais que se faz em uma manhã comum de sábado. Arrumou as coisas e foi para o local do pulo.

Após uma certa espera, chamaram seu nome: “Aprígio? Hora de se vestir”. Sentiu uma cutucada no pescoço. Não soube o que era, mas de repente seu estômago revirou. Até hoje ele jura que foi uma injeção de medo aplicada pela Enfermeira Realidade. Percebeu que ia ter que improvisar, aquilo não estava no script de sua vida… E o bom Aprígio começou a tremer nas bases… era a primeira era glacial no seu estômago.

– “Calma Aprígio” – pensou. “Vai dar tudo certo”.

– Como você sabe? Nunca pulou! – respondeu uma voz misteriosa.

– Mas hein? Quem é você? Interrogou-se Aprígio.

– Seu Bom Senso.

Aprígio resolveu parar de pensar e se concentrar nas instruções. Aquele papo não ia levar para lugar nenhum mesmo.

Pediram para ele entrar em um macacão especial. “Roupa imunda, será que eles lavam todo dia?”, foi seu primeiro pensamento quando viu o traje, porém decidiu interrompeu suas ideias para evitar outro diálogo estranho. Concentrou-se. O instrutor passava uma série de informações prontamente ignoradas por Aprígio. Para controlar o nervosismo teve que abrir mão de um sentido, no caso, a audição. Parece que o homem falava do tipo “… dai você puxa a corda quando der seis mil pé e…”. Mas Aprígio não estava muito interessado nesse tipo de coisa. Aliás, nem sabia o que diabos fazia ali.

Subiu no avião encangado no instrutor. A sacola com o paraquedas estava amarrada rapaz, por isso Aprígio nem reclamou tanto quando, após ser amarrado, ele apertou a corda e aprochegou os dois. Dispensável, porém necessário.

Quando sentou no banco do avião, Aprígio relaxou. Parecia uma viagem normal, tranquila. Tirando o fato que todos estavam com as mochilas nas costas ao invés de colocarem no bagageiro. “Aí se a aeromoça estivesse aqui, todo mundo iria levar um esporro”. Aprígio estava com isto na cabeça quando um desgraçado abriu a porta do avião para sentir o vento gelado.

Até que ele não estava mais nervoso. Mas ficou. O motorista resolveu aprumar um pouco e virou o avião de lado, de maneira que Aprígio só não gritou porque estava com medo demais para isso. O vento gelado entrou na cabine do bimotor e reiniciou a segunda era glacial em seu estômago.

Uma vez que a porta foi fechada, o único barulho que se ouvia era o ronco dos motores e o vento sendo cortado pelas asas do avião. Aprígio foi recuperando a compostura.

Mas chegaram os 5000 pés. Mais uma vez um zé-vagabundo insitiu em acabar com a única proteção entre Aprígio (que estava sentando ao lado da porta) e o mundo exterior. A terceira era glacial iniciara. O avião começou a tremer, um casal se beijou e pularam de mãos dadas. Coisa linda de se ver.  Aquilo era muito amor ou muito ódio. “Um casal para pular de mãos dadas ou se ama a ponto de não largar o outro, ou odeia a ponto de querer ver um se esborrachar no chão primeiro”, pensou ele. Depois descobriu que eram os saltadores de baixa altitude. Tanto faz.

Assim que o interior do avião foi, novamente, isolado do perigoso exterior, aconteceu algo singular.

Subiu um cheiro azedo na cabine. Veio lá de trás. Parece que algum saltador nervoso estava podre. Dizem que o medo e nervosismo são ótimos corrosivos. Melhores até que coca-cola para desentupir pia. Tiveram que abrir a porta do avião de novo por causa da emergência. Dessa vez o Aprígio não ficou com medo por duas razões: foi bem engraçado ver alguém mais aperreado e, depois, ele já estava com muito mais medo que podia aguentar.

Quatorze mil pés. Era hora de se levantar. O instrutor dá dois tapas nas suas costas e sussurra algo em seu ouvido. Aprígio rezou para que não fosse nada de importante, ainda não tinha recuperado a audição. Foi caminhando encangado para a porta do avião aberta. O pessoal tinha essa mania chata de abrir a desgraçada da porta.

Dizem que o importante é não olhar para baixo. Nem precisa. Aprígio olhou para o horizonte e só viu chão. Chão por todos os lados. A terra estava tão distante, porém tão perto. De repente, quatorze mil pés parecia uma distância tão ínfima quanto a que percorremos quando tropeçamos em algo.

Posicionou-se na porta do avião. Ou melhor, foi posicionado. Seus dedos lutavam dentro do sapato para se segurarem no último resquício de chão disponível. O medo de Aprígio era algo indescritível para si mesmo. Apenas alguns centímetros de avião o separavam da segurança projetada por Santos Dummont, da queda.

E ai ele aprendeu duas coisas muito importantes.

Primeiro. Nunca confie quando alguém falar “quem vai pular é você”. É mentira. Se dependesse do Aprígio ele ainda estaria lá encima no avião. Mas não, pulou. Ou melhor, foi pulado.

Segundo. O medo apenas existe na iminência do porvir, do que vai acontecer. O temor é a linha divisória entre tudo que fizemos e as coisas que ainda iremos fazer. Passada esta fronteira, o medo fica para trás e vira apenas um carimbo no passaporte de sua vida (lugares por onde estivemos).

O primeiro centésimo de segundo após abandonar o porto seguro é longo. Muito mais longo do que a Natureza poderia ter planejado.

Aprígio estava em um estado paralelo. Absorto de qualquer lei natural: seja da gravidade ou da passagem do tempo. Por sua cabeça transitava algo entre o medo e o prazer com uma pitada de “sem noção”. Um tipo de “sem noção” bem particular, bem individual. Talvez esse tempero especial que seja a graça ou a importância do momento. Representa uma quebra da lógica pessoal: se jogar do avião. Alguns neurônios voam pelo ouvido e abrem espaço para novas sinapses e conexões. É como uma pequena passada de vassoura no quartinho escuro lá no fim da casa onde guardamos um monte de tralha inútil ou coisa do tipo “quem-sabe-um-dia-isso-será-útil”.

E tudo isso acontece no primeiro centésimo de segundo. O segundo centésimo fora recheado de paz.

A partir do terceiro centésimo, Aprígio começou a tomar consciência do seu corpo. A primeira coisa que notou foi a impossibilidade de respirar. Simplesmente as moléculas de ar passam muito rápido por seu nariz. Ele sabia que a queda livre iria durar um minuto e o desespero voltou a bater. Lembrou das palavras que não havia escutado. Abriu a boca, gritou o mais alto que pode e sentiu seu pulmão inflar. “Oba, um novo jeito de respirar”, pensou.

Começaram a fazer manobras, a manipular o centro de gravidade e aerodinâmica do próprio corpo para girar, voar e girar novamente. Todos os movimentos foram sendo redefinidos neste novo ambiente tão transitório.

Aprígio percebeu que o medo ficara dentro do avião, ou foi expurgado com seu grito. No rosto apenas estava um sorriso de mais pura alegria. Controlou a pequena rebelião pavor que tentou emergir do seu âmago e se sentiu seguro.

A velocidade aumentava a cada instante, o minuto pareceu um século. Aprígio admirou-se ao perceber como era bonito o horizonte visto de cima. Como tudo no mundo, tinha seu contorno prontamente redefinido. Sentiu que seu sangue estava sendo substituindo por adrenalina. E isso o fez sorrir.

Até a audição, o sentido que sacrificara poucos momentos antes, voltou a funcionar. Era um som novo que ouvia. O som o do vento sendo cortado por seu corpo. Seu sorriso aumentou.

Seis mil pés. O instrutor puxou a corda. Depois Aprígio descobriu que era ele quem deveria ter puxado pois a filmagem ficaria mais legal. Detalhes… Aprígio estava concentrado demais em outras coisas para lembrar de abrir o paraquedas. Ainda bem que havia o instrutor-encangado.

A velocidade diminuiu, o sorriso não. Planando em direção ao chão, era possível observar com mais calma os detalhes do mundo. Perceber que o horizonte não era aquela linha reta que sempre desenhamos. Que as pessoas lá embaixo parecem tão pequenas em relação ao mundo, lembram formigas, talvez saúvas.

Quando aterrissou, Aprígio resolveu revisar o script da vida. Passou na papelaria, comprou uma borracha e apagou tudo que havia riscado do roteiro.

Jogou a borracha fora e começou a escrever com um lápis novo. Nada como ver as coisas por outro ponto de vista.

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