Havia tropeçado tantas vezes naquela pedra que já imaginava a dor antes mesmo de a sentir. Todo seu calculo e detalhado planejamento fora por água abaixo. O cansaço o alcançou.

Adorava correr de pés descalços. Sentir a aspereza do chão de terra. Todos os seus detalhes, pedrinhas, meros detalhes eram sentidos amplamente pela primeira camada de pele de seu corpo. A despeito da dor, adorava correr. Faz parte, o faz sentir vivo.

Havia escolhido um belo lugar hoje. Bem distante de tudo, porém plano. Sua trilha alternava de textura e tonalidade como se uma mudança fosse algo fácil. Ora crespo, o solo não mais o feria como da primeira vez. Nada como experiência para engrossar as solas. Mesmo assim incomodava. A natureza,  uma bela e enfurecida mulher, intercalava as espetadas cascacolhasas por um carinho suave, um constante e macio alisar provido pela delicada grama.

A velocidade da corrida deixou de ser o principal. Devagar ou rápido, estes adjetivos foram banidos de sua lista de preferências corridas atrás. Abandonado também ficou a vontade de chegar. Longe de ser uma breve depressão, abandonou a vontade de chegar. Trocou isto pelo prazer de estar. O prazer de sentir, respirar e pensar. Os únicos sons exóticos provinham de seu próprio ser: o ar sendo aspirado pelas narinas, as esbaforidas de sua boca, o som de seus pés cavucando a terra.

Lembrava que possuia um rosto assim que o sol cravava seus pincéis de bronze nele. As pinceladas eram ditadas não pela vontade do astro-rei, mas pelo humor das árvores e suas sombras. Iam e vinham. Lembrava e esquecia. Sorria sempre que a tinta bronze entornava sobre si. Ela exalava um odor suave e o fazia suar. Despertava um ardor nos olhos, um lembrete do cuidado que deve-se ter com os espelhos espirituais.

Eventualmente, a natureza mandava um recado mais duro. Duro e pontiagudo. Lança de um medonho ardil para te desafiar. E ali, escondido entre as conhecidas pedras ou o macio capim, acoberta um perverso espinho ou pontiagudo seixo. Inocentes em sua intenção no mundo, esta discreta emboscada cumpre o papel a que se destina: te testar. Apenas foram moldadas no formato de fazer-te mal e executam com esmero esta lastimável incubência. Desconhecem outro ofício. Igualmente desconhecem o porquê de suas ações ou príncipio moral. Estão no caminho por estar. Para te testar. Para te fazer crescer.

São espinhos ou pedrinhas apontadas.

Apesar da dor causada, há uma inegável vantagem nestes infímos e ardilosos detalhes da trilha: ainda que ardilosos, são infímos.

Nem sempre é preciso parar, mas quando é necessário, deve-se dedicar um minuto ao descanso. Levantar os pés e se livrar do espinho. Uma lágrima costuma escorrer um pouco. Olhar e refletir sobre o caminho torna-se vital. Abrir os olhos.

E continuar.

Afinal, apesar de ardilosos, os espinhos são infímos.

Todos os seus calculos haviam falhado, o cansaço o alcançou.

Mas não parou. Respirou fundo mais uma vez. Limpou a lágrima do tropeço, retirou o espinho das grossas solas do pé. Diminuiu o ritmo e continuou.

A despeito da dor, correndo ou andando aquele era o seu caminho.

Correr Descalço