Mais um belo dia na casa de minha avó. Nada de palmadas, nem de palavras inteligentes retiradas de um livro qualquer, escrito por alguma reencarnação do Dalai Lama ou outro grande mestre oriental (mestres orientais sempre me parecem mais mestres). Apenas mais um dia.

Foi só um dia na sua companhia, porém estes momentos são recheados de simplicidade e tranquilidade. Difícil explicar exatamente o que sente quando ela está presente. A manhã já corria a todo vapor quando chegamos à casa “avozal” em um sábado qualquer. E a conversa logo começou na sala. A pauta do noticiário informal estava repleta de notícias interessantes: Zeca Fulano, filho de Dona Maria, ia casar, pois engravidou Dolores, irmã de João da Faca.

Chico do Boné abriu um posto de gasolina logo ali, depois da curva, ao lado da casa de Tonho Tatu. Este, por sinal, estava muito irritado com o cheiro do combustível. Acontece que, para economizar, Chico colocou sua filharada para encher o tanque dos carros. Só que os moleques viviam derramando o sustento da família no chão. Dizem, inclusive, que Tonho Tatu passa o dia amolando sua foice. Não que ele seja brabo, pense num homem frouxo, mas está na esperança que uma faísca voe da pedra de amolar direto para a venta de uma das bombas, exploda aquele comércio do cão e mande todos os cornos para o espaço. Além de bastante precavidas, as futuras viúvas também são muito amigadas, então já compram uma passagem de navio para acalmarem o coração da futura tragédia.

E a conversa mole seguiu por aí, sem acrescentar muito, mas também sem subtrair. Apenas servindo como adubo para longas risadas e divertidas caretas seguidas por expressões do tipo “e é mesmo?” ou “Ave Maria… que coisa!”.

À medida que o saco de novidades ia se esvaziando, nossas barrigas iniciavam uma grande fanfarra sonora, com ritmo bem marcado pelo grande bumbo, o despertador da vergonha, o ronco do motor, o famoso grito interno do desespero. Era a fome que se fazia presente.

Vovó logo se adiantou e preparou a mesa: uma travessa de macarrão ao molho de tomate, outra de suflê de bacalhau, feijão verde com cebolinha, peixe frito, peixe cozido, batata frita, vatapá e farinha, além de duas qualidades de arroz, um branco e outro amarelo. Lá no cantinho da mesa, uma bandejinha rasa e prateada foi decorada com um lençol verde. Por cima do forro oliva, estiravam-se gordas e vermelhas rodas à espera de uma direção, entrelaçadas com finos fios roxos. Ao canto, repousavam toras alaranjadas. Ou seja, era a bandejinha da salada: alface, tomate, cebola e cenoura com um vidrinho de vinagre de maçã ao lado.

“Mas Vó, não tem aquela saladona para quem quer comer pouco e leve?”

Tranquila estava, tranquila ficou. Vovó olhou para o imprudente inquisidor com sua antiga expressão composta apenas de bondade e piedade. Uma expressão tão típica de quem já perdoou tal asneira antes mesmo de ela acontecer, dom que só o tempo dá, apenas por entender que ela é fruto de uma inocência sem fim. Respirou e falou:

“Meu filho, você não sabe que não se faz regime na casa da Avó?”

Ninguém comentou mais nada. Eu me encolhi na cadeira e arrumei meu prato com uma colherada de cada cumbuca, inclusive das duas qualidades de arroz. No final, todos repartiram seu quinhão da folha de alface.

Ao final do almoço, já estávamos mais pertos de bolas com braços do que humanos com estômagos. Outro inconsequente pediu a palavra e perguntou pelo pacote de paçoca de amendoim que vira semana passada ao lado da bandeja de frutas.

“Já comi tudo, meu filho”, comentou vovó.
“Oxe, mas o pacote todo? É paçoca demais! Faz mal!”, parece que os netos nunca aprendem…

O sorriso largo e bonachão teria sido resposta suficiente. Porém, com uma expressão trelosa, daquelas que só crianças que já brincaram na lama, ficaram gripadas de chuva, quebraram um vaso em casa ou comeram a cobertura do bolo com o dedo (além de avós felizes!!!) sabem fazer, ela respondeu:

“Sei, mas, a mim não fez!”.

Nunca vi uma lógica tão bem aplicada.

paçoca