Sem querer parecer dramático, mas aprendi a sempre me despedir das pessoas que gosto. Nada de experiências traumatizantes do tipo “e então nunca mais o(a) vi…” acompanhados de suspiros de pesar.

Nem sempre o Adeus é carinhoso ou amoroso, mas insisto em torna-lo real. Em materializar o momento em palavras ou gestos que adjetivem bem a situação. Sabe? Realmente nunca havia dado valor a este tipo de atitude. Até um dia que percebi o quão distante dois lugares, duas pessoas ou dois momentos podem ser separados pelo tempo.

O tempo, a mais cruel, rigorosa e precisa das distâncias, seja qual for a unidade de medida. Ele pode ser incrivelmente longo e distanciador. Mas demorei a perceber.

Foram dois dias diferentes que contribuíram para esta visão.

O primeiro me é claro, histórico, memorável e incrivelmente simples, até banal. Tão simples quanto apenas ocasiões memoráveis podem ser. A despeito de tudo, foi um momento sem grandes importâncias práticas para mim.

Maio, Agosto ou Janeiro… não lembro. Aliás, lembro sim. Foi Outubro. Acho que foi Outubro.

A cena que me recordo é a de um colega de trabalho. No meio da tarde, ele deu um suspiro um pouco mais forte do que o tédio das horas exigia, olhou os ponteiros do relógio e levantou-se da cadeira. Havia algo de estranho. Havia algo de amarrado nos seus movimentos. Rapidamente, arrumou alguns poucos papéis encima da mesa, guardou o lápis de madeira, folheou um caderno velho a procura de anotações importantes e jogou no lixo dezenas de páginas riscadas soltas pela escrivaninha. Eram folhas sem nenhuma anotação legível, deveriam ter conhecido a lixeira há mais tempo, porém sempre recebiam algum tipo de indulto, talvez como reconhecimento pela utilidade passada.

Então foi no armário procurar algo. Não achou. Mesmo assim prosseguiu a busca em todos os móveis do nosso pequeno contêiner-escritório. Terminou na bandeja de frutas. Pegou uma maçã do dia anterior, já um pouco passada e, sem se preocupar com o estado dela, guardou no bolso. Eram ações desprovidas de energia, muito mais do que automáticas, eram ações simbólicas, litúrgicas e confusas, pelo menos para mim. Não conseguia compreender o que passava pela cabeça do colega.

Com a maçã no bolso, ele se dirigiu a porta de metal do contêiner. Ela fazia um barulho irritante por conta da ferrugem nas dobradiças, além de sempre bater com o vento e arrastar no chão. Começou a abrir a porta mesmo com todos os inconvenientes dela. Olhou para nós com uma expressão estranha. Sua face estava coberta por uma ansiedade, talvez até por medo. Emitiu um segundo suspiro litúrgico e, virando para mim e outro colega, falou:  “Então é isso pessoal… nos vemos por ai”. A frase demorou tempo o suficiente para girar a fechadura. Ao final dela, ele simplesmente saiu. Não esperou resposta. O único barulho que se ouviu foi o ranger da dobradiça enferrujada e o arrastar irritante da porta no chão.

Aquele havia sido o último dia de trabalho dele. Eu não sabia. Nem ele se importou em dizer. Na época, a despedida para mim era uma mera formalidade. Comentamos o fato e continuamos o trabalho. Era uma questão prática, daqui a pouco encontraria com ele de novo para beber algo. Achava.

Só o vi de novo três anos depois.

Também só refleti sobre isto três anos depois. Foi a primeira vez que percebi o tempo passar. Exatamente ao responder a velha e retórica auto-pergunta “Fulaninho! Quanto tempo?!”. Ai percebi que o tempo é realmente uma distância.

Pensando em tudo isso, o que me marcou foi a banalidade da despedida. É desnecessário transformar um simples “tchau” em um ritual. Como falei, a cena foi simples, nada de histórias de guerra ou catástrofes. Apenas o dia-a-dia, cru.

Apenas o cotidiano, exatamente do jeito que ele gosta de nos ensinar suas lições: corriqueiramente e demoradamente.

O outro momento foi quando me mudei de Recife. Mas fica para o próximo texto.

E sem querer perder o costume: aquele abraço e até a próxima.

Garfield dando tchau