“Ah Aprígio! Deixa de ser ciumento.”

Esta frase era como um mantra sendo constantemente repetida para o velho e bom Aprígio. No começo somente sua mulher o recitava. A cena típica acontecia na ocorrência de um decote um pouco mais ousado ou na ausência de alguns insignificantes centímetros na barra da saia.

Todavia, seu olhar em muita diferia daquela ríspida e flamejante encarada tão normal aos que sofrem de paranoia afetiva, de ciúme mesmo. Ao invés de suas artérias estarem ardendo nas chamas do ódio, seus globos oculares eram banhados de um tipo de paz. Um olhar calmo, tranquilo e, até mesmo, carinhoso…

Sua expressão costumava ficar envolta em uma camada de pura inocência. Mesmo assim, ali no fundo dos olhos, bem no cantinho mesmo, perto da divisa entra a visão e o tato, era possível perceber um tantinho de desaprovação.

Seu ciúme pode ser classificado na forma mais estranha de todas: o ciúme infundado. Não havia razões conhecidas ou desconhecidas, explicitas ou ocultas para fomentar este sentimento. Seu adubo era interno, seu cultivo autossustentável e, sua colheita, frequente. Nem o Aprígio deve entender direito o que sente.

Felizmente o nosso Aprígio não sofria de “Raiva”, o mal do século. Seu ciúme infundado era inocente. Seu ciúme não tentava tosar. Era que, segundo suas próprias palavras, ele não conseguia segurar seu olhar e o característico sorrisinho que soltava sempre que o zelo excessivo brotava.

Há quem creia que esse problema começo na alfabetização do Aprígio. Todo mundo aprende as vogais assim:

a-e-i-o-u

Mas o jovem Aprígio, dizem, aprendeu assim:

cArinho-CEP -cIúme-cOmpromisso-cUidado

Dai essas palavras fixaram em sua cabeça de tal modo que ele não consegue mais desassociar uma coisa das outras. Se esta história é verdadeira, só perguntando para sua professora…

Com o passar do tempo até seus filhos aprenderam a recitar o mantra “Deixa de ser ciumento painho!”. Mas falavam só para depois sorrirem com aquela visão do que seria uma visão de paz: os olhos aprigianos se envolviam em um véu quase cômico como os de uma criança que pede um picolé aos pais. Um olhar carinhoso. É até bonito de ver. Ele também nunca argumenta contra, apenas acrescenta uma pitada de sorriso à cena.

Sabe? Lá no fundo, Aprígio até gosta quando faltam alguns poucos centímetros na barra da saia mesmo. É sua deixa. O momento de trazer a trona o olhar de pidão repressor. De ouvir a reclamação de sua mulher e de soltar aquele belo sorriso de deboche.

Pensando bem, esse Aprígio não é ciumento coisa nenhuma. Ele é um danado mesmo!

Há, por sinal, o “CEP” da alfabetização não tem nada haver com a história do ciúme, mas é que ele gosta de organização e padronização. “Nunca saio de casa sem saber a rua e o número que vou me dirigir”. Esse Aprígio é uma figura …

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