No momento que Aprígio abriu os olhos ele sentia que não estava mais no controle da situação. Havia uma outra pessoa determinando seus passos e ações. Por mais estranho que pareça, esta entidade invasora dividia espaço com o Aprígio original na sua própria mente. A ele só restava observar e se angustiar.

Aprígio tentou levantar da cama, afinal precisava tomar um bom banho, preparar o café-da-manhã e ir trabalhar. Porém, suas pernas não se moveram. Elas agora só obedeciam àquela outra consciência. E este visitante era um baita de um preguiçoso. Ao invés de erguer o corpo de Aprígio, ele insistia em abraçar vigorosamente o travesseiro curtido por anos de sono. Perseverante na ideia de permanecer deitado, suas pernas procuravam uma posição mais confortável no emaranhado formado pelos lençóis.

A meia-luz que pulava da janela e o frio artificial do ar-condicionado tornavam o quarto um perfeito ambiente para homenagear o relaxamento e a inércia. Mas Aprígio estava aflito. Necessitava urgentemente iniciar seus afazeres matinais. Já havia listado, inclusive, os itens do café-da-manhã que iria evitar a fim de otimizar seu tempo. Usaria a mesma calça do dia anterior pois o cinto continuava presa a ela.

Mas “Calma Aprígio, ainda dá tempo” era tudo que ele ouvia da voz intrusa. “Calma Aprígio, só mais 10 minutos”. E assim passavam-se 15 minutos. A despeito de qualquer decisão de Aprígio, o intruso insistia em dirigir seus movimentos com lentas ações contrárias às reais necessidades da hora.

Este intruso-dominante havia decidido que Aprígio era rico o bastante em matéria de tempo e poderia se dar o luxo de esbanjar alguns minutos. A segunda voz, ainda por cima, era exigente e esbanjadora: queria escutar música, ler todos os jornais disponíveis do vasto mundo da internet, dormir mais um pouco e ainda tomar um banho demorado.

Aprígio estava sofrendo em agonia. Tinha plena consciência que precisava sair logo para não chegar atrasado, mas simplesmente era incapaz de mover um dedo. Parecia ser um expectador de si mesmo, da sua própria vida. O intruso dominava todos os movimentos. O sofrimento matinal era terrível. Mesmo assim, sua cabeça não levantava do travesseiro gelado.

O controle corpóreo só lhe foi devolvido após trancar a porta de casa e seguir apressado em direção ao trabalho. A realidade o acertou como uma pedra. Estava atrasado, consciente de toda a perda de tempo ocasionada por este ser ao qual denominou de Oigirpa. E todas as manhãs eram assim, assombradas por Oigirpa, o intruso da preguiça.

 

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