E lá pelas tantas, cá estava eu suando, esbaforido de cansaço. O ar pesava para entrar e sair do corpo. O treino havia iniciado há pouco tempo, porém após alguns rounds desferindo golpes no saco, o corpo já emitia sinais de cansaço. Bater cansa muito, mas apanhar cansa muito mais. Por isto eu tentava me manter ativo o máximo possível nos treinos. Minha guarda já estava razoavelmente boa, faltava melhorar a potência dos socos e, naquele dia, o professor insistia bastante neste assunto.

Sou o mais fraco e lento do treino, porém, sinceramente, isto não me abala nenhum um pouco. Pelo contrário, mais de um ano após iniciar o boxe já vi muita gente entrar e desistir com menos de um mês de suor. Continuar me põe no mesmo patamar dos mais antigos, nos iguala em pelo menos uma característica: a persistência. Os demais iniciantes foram desistindo, um a um, semana após semana. Alguns cansaram de pular corda, outros não suportaram a ardência que sentimos no braço para manter a guarda alta por nos primeiros dias. Desconfio que a maioria ficou com medo de apanhar. Acho até justo.  Porém persistência por si só não garante que eu vá apanhar menos. Aliás, muito pelo contrário, na tentativa de aprender os movimentos, acabo me expondo e arriscando mais. Ultimamente o professor já não pede mais para os outros terem piedade de mim. E vou te contar, bater cansa, mas apanhar cansa muito mais.

E lá estou eu. Todos treinam há muito mais anos que eu, parece que o tempo selecionou os mais dedicados e persistentes. E, ali entre todos, lá estou. Essa semana aprendi uma lição com um deles.

Há uma pessoa que bate forte. Todos batem forte, mas há um aluno que bate exageradamente forte. Desconheço suas intenções, mas peso do seu braço é descomedido com os objetivos do treino. Nunca entendi o motivo do professor insistir para que eu lutasse com ele vários rounds por aula. Achava chato aquela violência desproporcional. Os demais alunos sabiam o peso de suas luvas.

Não sei, mas sentia uma certa maldade em seus golpes. Sempre que acertava minha barriga, o que era constante, percebia um prenúncio de riso em sua face. Um riso misturado com protetor bucal. No começo, talvez em um lapso de honra, ele até tentou me ensinar algo, porém logo decidiu me fazer de saco de pancadas. E o desgraçado do professor, àquela altura do treino eu já estava bem irritado, não emitia um som de desaprovação.

E entre um round e outro, fui observando os passos do adversário. Também os movimentos dos outros colegas. Com o tempo fui aprendendo a me movimentar, a enxergar e antecipar alguns movimentos. Até que um dia, indo para o treino, tomei uma decisão: hoje vou soltar a mão naquele cara. Nunca faço isso, mesmo quando alguém abaixa a guarda em decorrência de um golpe, prefiro me defender a ataca-lo. Mas hoje seria diferente. O pretendente a Maguila iria sentir “o peso da luva” como o professor costuma falar. O golpe já estava armado em minha cabeça. Sabe? Depois de lutar tanto contra ele, percebi um padrão. Seu principal golpe era socar minha barriga quando eu abria a guarda do abdomem. Neste momento, ele se enche de confiança, abaixa seu tronco e golpeia a boca do meu estômago com força. Mas, como todo golpe firmado em um chão de otimismo cego, ele abre a guarda e expõe toda sua face (seu quengo!). Geralmente perco o folego e me afasto, mas desta vez seria diferente.

Mantive distância no primeiro round todo, já estava um pouco cansado da sessão de saco. Isto o deve ter irritado bastante, pois ele começou a insistir em ataques rápidos e agressivos. Devia estar ansioso para desferir seu golpe padrão e abrir aquele sorriso doentio. Mas isto não seria no round um.

No segundo assalto, abri a luta, soquei um pouco e mantive a guarda alta. Apesar do cansaço, o ar começou a fluir levemente pelas narinas. Meus olhos abertos fixavam cada movimento do contendedor (o oponente, aprendam essa palavra!). Então subi um pouco meus braços, rotacionei o corpo e deixei a barriga totalmente desprotegida, suplicando por um golpe. O erro típico que sempre fiz. Como uma criança que entra na loja de doces, seus olhos brilharam. Em sua face era possível ver um sorriso de vitória antecipada, seu espírito deve ter gritado de fúria e, com uma sede de sangue, ele desferiu um soco direto no meu estômago.

O medo é um dos principais adversários que devemos vencer em qualquer luta. Medo de apanhar é algo paralisante. Nem vale a pena entrar no ringue com este sentimento, a derrota é quase certa. O professor costuma gritar em nossos ouvidos: “confiança na guarda e avance”, “olhe para seu adversário” e outras palavras de guerra. Porém, principalmente, exige atenção e olhos abertos. É normal levar um soco. Se for o caso, basta recuar e levantar a guarda. Ou contra-atacar.

Sua luva atingiu meu abdômen com a força proporcional a sua raiva. Houve apenas uma diferença: meus olhos estavam abertos. Era esse o momento que esperava. Para isto que abri a guarda. Seu direto veio arrasador em minha direção, seu meio sorriso era o prenúncio da vitória certa e fazia companhia ao ego inflamado. Como de costume, seu braço esquerdo relaxou e permitiu uma visão panorâmica de todos estes efeitos colaterais. E ai, a próxima coisa que ele deve ter sentido foi o cheiro de suor da minha luva misturado com uma sensação de leveza que sempre nos acompanha após receber um golpe na cara.

Ele levou um tempo para entender o que acontecera, tempo o suficiente para o round encerrar. Tempo suficiente para refletir e entender de onde veio o soco. Com meu abdômen contraído, o seu direto de direita não conseguiu surtir efeito e sua arrogância e confiança proporcionou-me uma fração de segundo para reagir. Tempo mais do que suficiente para meu encontrar meu punho encontrar o caminho certo. Seu sorriso deve ter voado longe.

O terceiro round foi agressivo, ele queria sua vingança, mas era impossível retirar o meu troféu. Mesmo desferindo socos com força, dava para ver seu receio em atacar. Estava com medo de abrir a guarda de novo. Eu não possuía a velocidade necessária para responder aos seus ataques, mas ele, mesmo assim, estava com medo. Especialmente quando, a cada sequencia exagerada de socos, eu esquivava. Aliás, tudo que consegui fazer foi esquivar.

O medo dele era meu troféu pois consegui atingir onde nenhum soco chega:  seu medo. No momento que atingi seu rosto, naquele instante de tempo que minha luva tocou sua face, transferi algo muito mais poderoso do que força ou dor. Transferi medo. E ganhei confiança.

Continuo sendo o aluno mais fraco da turma.

Porém o aluno mais fraco e lento aprendera a contra-atacar. Levar um soco na cara aberta é algo que afeta o ego de muita gente. Joguei o meu ego no lixo depois de alguns. E, agora, havia me livrado do medo.

Finalmente entendi o que significa “confiança na guarda”.

Acho que ele também.

 

 

guarda