– Chega de durmir seu zé-preguiça. Quero conversar.

 

Foi mais ou menos assim, de um jeito delicado e carinhoso que ela me acordou. Estava curtindo o colo de avó na sala. De todos os hábitos de infância, creio que seja um dos únicos que mantive: curtir um colo da avó. Mas ela queria conversar.

– Hum… oi vó. Como você está?

– Bem, mas com saudade da granja.

 

É verdade, havia uma semana que ela veio do interior para fazer alguns exames de rotina. E, em suas próprias palavras, ficar “tanto tempo assim” longe de sua casa era uma pesar.

 

– Falando nisso, como estão as coisas na granja? Plantando muito?

– Que nada meu filho – “Ora bolas”, pensei, ela chama os netos de “filho” – estamos com uma peste de saúva.

 

Saúva, para os ignorantes urbanos, é uma formiga gulosa. Ela come tudo que vê pela frente, além de ter um ferrão maldoso e agourento. Deixa uma coceira no pé que não é brincadeira não…

 

– E por que vocês não colocam veneno? – Perguntei, logo eu, um entre tantos ignorantes urbanos cheio de razão e solução.

– Ah… colocamos remédio sim. Mas é preciso espalhar o veneno na colônia toda. Vamos seguindo o rastro das formigas até achar sua casinha.

– Um genocídio então? – Defensor dos direitos de todos, como todo ignorante urbano.

– Você prefere ficar sem jaca neste ano? – Sábia e calma, como toda avó-granjeira.

– Hum… e de que maneira vocês seguem a trilha? – Perguntei, preocupado com o carregamento de jaca anual.

– Meu filho, temos que dar o braço a torcer para essas saúvas. Elas fazem um caminho reto, lindo, parece um rastro de trator. Às vezes eu paro e fico admirando a perfeição daquele rastro. Elas caminham de madrugada, todas certinhas e lindas. Carregam os pedaços de planta a noite a fora.

– Você fica com pena delas?

– A mesma pena que elas tiveram da minha roseira. Mas é bom admitir a beleza de algo quando vemos. Gosto de ficar admirando o trabalho das formigas, perfeito e harmonizado.

 

É bom ouvir as histórias de minha avó sobre a granja, tenho certeza que mexer com terra é o que a faz tão vívida. Ela continuou:

– Você já viu o tamanho de uma folha de mangueira? É enorme. Nenhuma saúva consegue carregar sozinha. Mesmo assim, elas sobem na árvore e começam a roer o talo. Daqui a pouco, a folha cai no chão bem perto de um monte de formigas. Elas começam a repartir e carregar a folha gigante juntas.

– Nossa, você gosta de olhar as formigas mesmo.

– Tenho muitas mangueiras e formigas de sobra.

– Oxe, mas o remédio na colônia, não resolve?

– Até que resolve, mas meu vizinho não faz isso na terra dele.

– E dai?

 

– “Dai”? “Dai”, meu filho, que saúvas não respeitam cercas. Aprenda isto: todos temos que cuidar das nossas granjas e das saúvas que aparecem nelas.

 

As saúvas não respeitam cercas.

 

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