Outro dia destes, estava conversando com minha avó de quase 90 anos: frivolidades, o tempo a cor do sofá, o último médico que ela foi, o encontro da terceira idade etc.

De repente, ela me falou:

– Gostaria de um retrato de vocês pois, na última Cheia…

Fazia algum tempo, sua cidade havia pago um pedágio enorme para a Mãe Natureza: o rio encheu demais, subiu demais e destruiu demais. A cidade ficou em pedaços. Foi uma Cheia com letra maiúscula. Era necessário muita força e paciência para caminhar devido ao mar de lama. As águas subiram até o telhado das casas. Arrastaram tudo que encontraram no caminho. Apareceu até na TV da França.

Lembro disto pois estava voltando de uma viagem por lá. Disseram que havia formado uma cratera tão grande que uma carreta, daquelas de trocentos eixos e milhões de pneus Goodyear ou Firestone, foi engolida.

Na época, fiquei com pena. A cratera, antes de engolir o caminhão, extinguiu uma bonita praça perto da casa da minha avó. Depois que vi o real estrago da situação, esqueci-me da praça. O que não foi destruído pelas águas, foi saqueado por alguns. Muita gente perdeu a vida…

-Gostaria de um retrato de vocês pois, a última Cheia…

-Destruiu tudo? Perguntei atravessando o fim de sua frase como o rio Una que atravessa sua cidade.

-Não, não meu netinho – paciente e com ternura, sem se abalar pela interrupção -. A última Cheia me deu oportunidade de refazer todos os porta-retratos que havia na sala.

Pasmo é uma boa palavra para definir meu sentimento. Fiquei pasmo com sua resposta e tranquilidade. Lembro-me dos porta-retratos de sua sala. Todos seus netos, bisnetos, filhos e agregados (desculpe painho, genro é agregado, apesar de ser muito bem-vindo!!!) estavam impressos e emoldurados em uma pequena sala bem do lado do telefone. Algumas fotos eram bem antigas e repletas de significados.

Foram-se todas. A Cheia levou tudo para o fundo do mar ou de uma cratera. Essa Cheia deixou várias cicatrizes.

Da casa só sobrou parede e teto.

Parentes nossos, cuja infância foi há tanto tempo quanto as primeiras primaveras de minha avó, passaram dois dias presos, ao relento, encima do telhado aguardando salvação.

Essas cicatrizes foram muito mais que materiais. Via-se no olhar, na alma das pessoas que algo havia mudado.

Mas ela via uma oportunidade de refazer suas fotos. Simples assim. Sofreu? Com certeza. Foi marcada? Não tenho dúvidas.

Mas depois de tantas chuvas, aprendeu que, assim como as paredes de sua casa, o fato de ter permanecido em pé era uma oportunidade de reconstruir e remobiliar a vida.

– Você não fica triste com a história da Cheia, Vó? – Perguntei, inocente e bobo…

– Meu filho – fez uma pausa como só nossas avós sabem fazer. Uma pequena pausa para respirar, tomar fôlego e escolher as palavras. –  claro que fico triste, porém foram 5 Cheias e, mesmo assim, estou aqui contanto a história. Tristeza é de quem partiu.

-… – mudo estava, mudo fiquei.

– Por que, logo eu, ficaria triste? – Ela sempre foi meio poeta, meio avó.

Tiramos uma foto bem bonita da família toda e mandamos para ela.