Não é pelo Carnaval.

Bom, até é pelo Carnaval, também.

Existe uma razão muito maior do que uma simples festa de 4-5 dias.

Um dia normal de Carnaval começa com um resmungo. Um devaneio de esperança ao qual todos são submetidos em uma espécie de ilusão coletiva: “iremos cedo para as ladeiras da cidade histórica” é o que dizem.

Querer, desejar e ansiar pelos ladrilhos da urbe-irmã-vizinha é algo muito bonito, contudo, é completamente diferente de acordar e ir. Eu, particularmente, nunca consegui. Aplaudo de pé, fantasiado e frevando todos aqueles que, às 8h da madrugada dos dias de Momo, encontram-se sorrindo, produzidos e alegres pelos sobe-e-desce de Olinda. De qualquer forma, quando se chega lá, os lábios espreguiçam-se e correm a acordar na necessidade de formar aquele primeiro sorriso de Carnaval.

A mulher-maravilha está logo ali, desfilando ao lado da vovó-maravilha. Hulk, homem-aranha e suas crias. A banda esgolenado-se nos metais. Colegial, hummm. Cerveja, chuva de espuma. A caixa dita o ritmo alucinado. Não adianta parar. Tátátá-tututut-ta’ta’tata. Este ano teve até um casal fantasiado de Curling, aquele lava-lava de gelo das olímpiadas de inverno (usem sua imaginação). Tudo isto cabe no finalzinho de uma manhã e no decorrer de uma tarde.  Rir e fazer rir, achar graça em todas as situações.

Mas não é pelo Carnaval.

Chamam de “ladeira” por conta da cerveja. Já para quem está sóbrio, o nome é penitência mesmo. Existem diversas razões para o piano não ter se consagrado como instrumento obrigatório no Frevo. Essas ladeiras constituem a principal das justificativas.

Não tem problema. Os demais instrumentos fazem bonito. Muito bonito aliás. Aplausos para quem toca ladeira acima. Para o resto, aqueles que apenas acompanham, cerveja. Ou água, enfim.

Mas não é pelo Carnaval.

Aliás, a correria começa muito antes. Decidir e comprar a fantasia também faz parte da festa. Gosto de ir lá o centrão da cidade. Ali, do lado do Mercado de São José. Perto de onde era o TRE (ou seria um posto qualquer?). Há sim… de preferência, na véspera.

Lá acha-se de tudo. Menos, claro, o que você quer.

Esse ano fui comprar a fantasia. Encontrei muita coisa. Bombeiro, capitão, homem de ferro, cuecão de couro. Chapéu engraçado, roupa descartável. Asa de anjo, espeto de diabo. Até uma fantasia de gorila completa eu vi. Deveria ser proibida. Em 10 segundos a pessoa morreria lá dentro. Olha só, perto do mercado, encontrei de tudo mesmo. Só de feijão havia quatro variedades. De castanha, ave-maria, não deu nem para contar. Tinha acerola, seriguela, umbu e cajá. Por R$5 levava um saco de uva, carambola ou um monte de melancia. Mas nada da minha fantasia.

Acabei comprando cola e material para fazer por conta própria mesmo. Pela primeira vez. Viva a véspera.

Sai com duas sacolas, o pé inchado, uma burrinha feita de bacia e chita e a camisa melada de seriguela. Comi um cachorro-quente e fui embora.

Os amigos? Teve aqueles que moram longe, em outra cidade… alguns não vieram. Natural, devem ter viajado para outro lugar ou, quem sabe, aconteceu um imprevisto, um compromisso importante. Reencontrei os vizinhos de infâncias, liguei para os familiares, para aquele pessoal do colégio, da faculdade e, por que não, para os amigos-turistas também (iguais a mim). Aproveitei uma tarde para ensinar meu sobrinho a andar de bicicleta. Conversei com meus irmãos e almocei com meus pais.

“Carai Véi!!!!”

Foi o que disse, em uma típica recifada, quando revi um pessoal de antigamente. Mas de antigamente mesmo. Revi e conheci.

O passado mistura com o presente, em um típico dia de Carnaval no RecifeOlinda, a fim de forma uma bela aquarela do futuro. É como se o real e o imaginário se mesclassem nas ladeiras da vizinha ou nas esquinas de cá. Tanto faz a ordem.

Dai vocês me perguntam: “por que vais sempre no Carnaval?”

Bom, não é pelo Carnaval…

…é pela camisa melada de seriguela e todo o resto ela representa que todo ano vou lá. E liguem a TV, se quiserem me encontrar.

Carnaval