Quem já saiu da cidade que cresceu conhece bem os desafios, dilemas e oportunidades que o destino oferece.

Existe até um trecho de música que fala “Que Deus do céu me ajude, quem foge à Terra Natal, em outros cantos não para, eu só deixo o meu Cariri, no último pau-de-arara”. A gente se muda e muda. Muda muito, perde o medo de sair por ai. Pelo menos alguns. Eu me incluo, ainda bem.

Porém, pode chegar um momento que, de alguma forma, acabamos nos fixamos em determinada região. Seja por cansaço, por descaso ou até mesmo por conveniência. Acabamos parando em algum lugar. O destino tem dessas coisas. Não vale nem a pena pensar muito no porquê. Mas acaba-se percebendo, nos detalhes, que as raízes cresceram e daqui a pouco é verão. São nos detalhes que residem a mudança.

 

Quando alteramos nossos títulos de eleitores, aceitamos que é ali que vamos construir um futuro.

Quando encontramos com conhecidos aleatórios na rua, assim meio sem querer, vemos que são nas novas esquinas que o presente reside.

Voltar para “casa” é entrar em um avião no sentindo contrário a casa dos pais.

 

Mudar pode ser uma questão de referencial. Há pessoas tão enraizadas (e nada de mal com isso!) que mudar de bairro é um parto. Existe o extremo oposto: mudam de país com a mesma facilidade com que trocam a meia. O mais comum é mudar de cidade mesmo. E, com a nova cidade, vem os novos hábitos do dia-a-dia também. Comparar com o passado e se lastimar é uma absoluta perda de tempo. Pena que alguns demoram tanto a perceber isto. São nos detalhes que residem a mudança.

 

O motorista de ônibus pensa que está em um rally em todas as cidades que morei. Mas também nunca percebemos quando ele anda direito.

Sempre recebi respostas mal-educadas quando perguntei por informações por ai. Mas foram muito menos do que as demonstrações de amparo.

É verdade que a família está longe. Mas almoçar sozinho no domingo sempre foi uma questão de opção.

 

E dai a vida vai seguindo, vamos conhecendo as ruas pelos nomes, as esquinas pelos bares e as praças pelas lembranças. Descobrimos que o melhor dia para comprar fruta e verdura é na quarta. Que chove em março e não em junho como chovia quando éramos criança (em outro lugar… em outro lugar). Mesmo assim, até acho engraçado, mas continuo comprando guarda-chuva em junho. Vai que São Pedro resolve mandar chuva só para matar a saudade. Precisamos reaprender todas as estações do ano. São nos detalhes que residem a mudança.

 

 

Ao invés de comparar aqui com lá (o presente com o passado), começamos a comparar lá com aqui.

Sabemos dar informação no metrô (ou no ponto do ônibus).

Começamos a confundir de onde é a aquela gíria engraçada que acabamos de falar.

E, principalmente, sorrimos em cada esquina de lembrança que esta nova cidade nos traz. É só se permitir tê-las.

 

 

Todo mundo que saiu de “casa” para outra cidade tem histórias engraçadas para contar, assim como sua memória pode estar, também, recheada de tristes momentos. Há algo de filosófico nisto, algo de desprendimento ao se mudar. Admiro quem se encontra sem precisar sair, admiro quem se encontra ao sair, gostaria de poder ajudar quem nunca se acha por ai.

Por mais estranho que pareça, a distância une sim as pessoas. Experimente encontrar alguém com a camisa daquele time fuleiro da sua cidade (por menor que seja). Olhe para seu lado e veja em seus amigos quem é de fora. Há uma comunidade gigante por ai onde o estrangeiro acaba se tornando nativo pelo simples fato de estar ali, com todos. São nos detalhes que residem a mudança.

 

Pedir “o de sempre” na lanchonete do metro e receber um mate com limão light e 5 pães de queijo.

Perceber o sotaque dos seus amigos de infância, quando vai visita-los.

Não conseguir identificar o sotaque de alguém, porém achar sua voz familiar, só para então, descobrir que a pessoa é de sua cidade.

 

 

Ser o forasteiro não precisa significar ser o de fora para sempre. Quem já saiu por ai sabe como se cria raízes:

 

É Regar, Cultivar e Insistir.

 

 

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As frases são de amigos que já saíram pelo mundo e, vez por outra, acabo encontrando.

 

jardim