Outro dia desses me perguntaram o porquê da minha árvore de natal ainda estar montada. “Fevereiro já é ladeira abaixo”, comentaram, “e você ainda com isso montado? Deveria ter guardado no dia 8 de janeiro”. Justo. Nada mais justo por sinal.

Fevereiro já passa da metade e o segundo mais famoso símbolo natalino ainda está ai, ostentando suas pétalas desprovidas de vida, porém detentoras de um verde imortal.

Esta árvore, vamos chamá-la de árvore mesmo ela sendo apenas plástico, é bem simples. Nada de mais assim. Provavelmente foi colhida na China. Viajou de barco, em um daqueles mega-conteriers cheio de tranqueiras e num-sei-pra-que-isso que os amigos orientais insistem em fabricar e nós insistimos em comprar.

Ela passa o ano bem dobrada na caixa. Por sinal, este ano preciso arrumar outra caixa: acabei de rasgar a original sem querer. Porém, quando chega Dezembro, que a acordo da hibernação, seus galhos parecem se espreguiçar em uma tentativa lenta porém constante de acordar e dar um “bom dia”, ou quem sabe…. “Feliz Natal”. A medida que seus galhos vão desabrochando, percebe-se que, cada vez mais, as folhas caem. Insistem em cair ano após ano. Penso que um dia não terei mais flores na minha árvore. Espero que a China continue plantando-as.  Este ano a folhagem ainda estava formosa, de maneira que pude deixar a árvore de braços abertos na sala.

Ela não possui raízes. De certa forma isto até me é conveniente. Daria muito trabalho e prejuízo ter que arrancar os tacos do chão e encher a sala de terra. Ao invés disto, ela possui pernas. E não são só duas: foi agraciada com três. Já dizia Euclides: três pontos formam um plano. Esses chineses pensam em tudo.

Já é o terceiro Natal que ela se espreguiça na minha sala. Compramos ela logo depois que me mudei para esta casa. Apesar do verde ser bonito, junto com a árvore resolvemos encher a sacola de geringonças vermelhas. Creio que estes pendura-e-cai deixam tudo mais bonito. Espalhados pela árvore, pode-se ver bolar do mais puro cristal-plástico vermelho, reluzentes e imunes ao efeito da gravidade. Na minha infância, as bolas de Natal sempre emitiam seus últimos suspiros logo após uma tabelinha muito bem executada entre a ventania inesperada e a gravidade tão conhecida. Estas que tenho são imunes. Deve ser um tipo novo de vidro.

Subindo mais pela árvore pode-se ver outros pendura-e-cai: laços vermelhos finamente dobrados, mini-caixas de presente bem embaladas como nunca embalei nada na vida, sinos dourados e o pisca-pisca. Sim… as luzes do pisca-pisca deixam um clima na sala. Quando chego em casa a noite, apagado as luzes da sala (alias… nem acendo) e deixo apenas o pisca-pisca ligado, constante, colorido, iluminando tudo. Lembro da árvore (esta de verdade, viva) que meus pais montavam lá em casa.

Cada ano que passou, fui acrescentando outros detalhes na decoração. Lá pelo meio da árvore pendurei um chaveiro no formato de sapato que comprei no meu primeiro ano nesta casa. Não me lembro bem do simbolismo o sapato, mas ia amarrar uma cópia da chave de casa e dar para meus pais. Toda vez esqueço de levar para Recife. Resolvi pendurar na árvore mesmo, além de ficar bonito, quem sabe este ano eu lembro de levar.

Um pouco abaixo do chaveiro-simbólico, estão dois packs de latas de coca-cola suspensos em um dos vários braços verdes. Comprei em uma viagem que fiz com minha família e acabamos visitando a fábrica do refrigerante mais famoso do mundo.

Coroando a árvore, lá encima, bem no topo de tudo, tem um urso. Um urso branco, daquele da coca-cola mesmo (da mesma viagem dos packs). Um urso polar com cara de abestalhado, vestindo um cachecol vermelho (como se ursos polares fossem abestalhados ou precisassem de cachecol) pendendo no último galho.

Não fui eu quem comprei ele. No final desta viagem, voltei sozinho para o Rio de Janeiro enquanto minha família seguiu para Recife. Já estou acostumado, mas seria mentira dizer que não bate aquele banzo toda vez que me despeço deles. Quando fui abrir minha mala para arruma-la ou desarruma-la, ali estava no urso branco com cara de abestalhado e usando um cachecol. Ele é um chaveiro. Meus irmãos colocaram lá sem eu ver para que tivesse a primeira lembrança da viagem assim que voltasse. O banzo passou.

Este ano quando montamos a árvore (odeio montar sozinho), vieram dois amigos me ajudar. Arrumaram um jeito de deixar o urso já encima da árvore sentando no galho.

Da próxima vez que me perguntarem por que não desmontei a árvore de Natal ainda, vou responder:

– Isto não é uma árvore. É um porta-retrato. Nele estão expostas o maior símbolo do Natal.

– Quais? – Perguntarão curiosos meus interlocutores.

– As lembranças.

Vou deixar a árvore ali mais um pouquinho.

 

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