– Oi. Tudo bem?

– Tudo. E você? O que te trouxe aqui?

– Me sinto gordo. Cansei disso.

– Fofo?

– Gordo

– Cheio?

– Gordo.

– Então quer emagrecer?

– Não. Quero transformar essa pelota que tenho no abdômen em 6 tanques de guerra. Pode ser?

– Vamos tentar.

Foi assim que começou minha ida a nutricionista. Duas semanas antes do Natal, uma semana antes da semana nacional das confraternizações de fim de ano: 7 festas em 6 dias.

Ilusão, coragem ou otimismo utópico? Sei lá.

Até tentei mar marcar horário para o próximo ano, mas estava cheio. Fui logo.

– Então vamos lá – disse a profissional, toda de branco e com um alicate monstruoso nas mãos.

– Pera ai! Esse é o alicate da humilhação. Não quero.

– É para nosso bem. E se chama adipometro. Você trouxe short?

Não, não tinha levado short. Ela não havia avisado. Mas fui com uma cueca nova, bem bonitinha comprada em loja de grife de cueca, bem melhor que aquelas de lojas de departamento. Super respeitosa. Para evitar vexames.

– Tudo bem. Eu tenho um short reserva aqui para pacientes que não trazem. Fique tranquilo, ele está lavadinho.

Aquele alicate realmente é humilhante. Quem já foi para a Nutricionista ou fez uma avaliação física sabe do que estou falando… Começam te apertando onde não tem muita gordura: coxa, braço etc… dai, quando a pessoa menos espera, beliscam um pneuzinho ali, bem escondido, logo abaixo do umbigo.

Humilhação é uma palavra que não se deve usar a toa. Para evitar desgastes, sabe? Mas o sábio Aurélio deveria mudar a definição de tal verbete.

Ao invés de:

“s.f. Ação pela qual alguém humilha ou é humilhado; afronta: receber uma humilhação. / Abatimento, submissão.”

deveria ter

“Quando o adipometro mordisca a pança, logo abaixo do umbigo”.

Isso, caros leitores, é a verdadeira humilhação. Tem até santo padroeiro: São Michelin.

Bola para frente.

Aliás, bola não, “futuro batalhão de tanques”. Sou bastante otimista.

– Venha aqui por favor. Suba na balança. Hum…

– O que significa “Hum…”!?

– Nada, só estou anotando seu peso.

– Então, a balança da a massa em quilos. O peso é uma medida que depende da gravidade do Planeta e é medido em Newtons.

– Oi?

– Nada, esquece. Quando deu o peso?

– 84 quilos. Temos muito trabalho pela frente.

Como assim “temos”? Quem vai parar de comer sou eu. Quem vai malhar sou eu. Definitivamente, a palavra “temos” não se encaixa no contexto. Enfim, a cena prosseguiu:

– 84 kg?! Poxa, balança de Nutricionista sempre dá para maior.

– Relaxe, vamos tirar essa picanha daqui!

Mão fria danada. Ela pensou que seria um incentivo. Já não bastasse a beliscada do Alicate-Michelin-Adiposo. Em um súbito momento de duvidoso incentivo, a treinadora do meu futuro batalhão encouraçado segurou a pequena capa de tecido adiposo, já tão humilhada, que, inutilmente, tentava se esconder abaixo do umbigo.

Procurei uma janela. Até encontrei. Felizmente havia uma grade. Caso contrário, teria me jogado na mesma hora.

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