Lá estava eu, no metrô. Aliás, este é um cenário comum, talvez não pelo tempo que passe neste transporte, mas pela situação que acaba ocorrendo.Imagine-se, trancando dentro de uma lata de sardinha, embaixo da terra.
Em uma situação assim, restam poucas coisas para fazer. Geralmente, me distraio lendo o jornal alheio, um esporte que, por sinal, venho desenvolvendo já há algum tempo.Atualmente treino para a próxima etapa: leitura completa de um livro alheio.
Não entendo o porquê, mas o jornal costuma ficar mais interessante na mão dos outros, apesar de ser distribuído gratuitamente na entrada da lata de sardinha.
Enfim, lá estava eu. Indo ou vindo, não interessa. Um detalhe inútil: estava em pé.Inútil para todos, menos para mim.Mas o fato é que eu estava em pé.

Ontem, o senhor sentado na cadeira do lado se deu o trabalho de pegar um folhetim gratuito: “METRO” o nome do jornal. A criatividade reina nos subterrâneos urbanos.
Há diversas formas de entender uma pessoa. Hoje consigo descrever você, leitor, pela forma a qual lê o jornal no metrô.
Aquele senhor estava lendo devagar. Deve ser uma pessoa pacata.
Em determinada estação pensei: “Não não não… volta a página”. Era a musa do brasileirão. Ele passou para o horóscopo. “Tudo bem, a próxima matéria sobre qualquer coisa deve ser interessante”, continuei pensando…  Bem, talvez não tenha “pensado” tanto quanto imaginei: o senhor olhou para mim.
Se fosse futebol, seria pênalti.
Mas como o esporte é “ler jornal alheio”, não deu nada. Ele só começou a folhear o jornal com a página meia fechada.
Odeio quem faz isso.
Se acham os donos do jornal. Ora bolas, era de graça, ele não pagou por isso. Eu não peguei porque… enfim, porque não havia necessidade, resolvi deixar o meu exemplar para outro.
Tudo bem que a vida não precisa ser um livro aberto para todos, mas custa deixar o danado do jornal escancarado no Metrô? Hoje o ensaio da musa do brasileirão era na praia…
Além de pacato, ele deve ser mesquinho.
Bola para frente. Aproveitei para fazer um treino tático: no fim do vagão vislumbrei outro jornal alheio. Fiz o lançamento de longe e fui buscar a bola.
Era uma senhora. Elas adoram essas coisas de graça, principalmente o jornal. Pena que pouco se interessam pelo concurso de beleza supracitado. Tive que me contentar com uma reportagem sobre Pernambuco.
Bateu saudade.

 

Sabe? Outro dia desses um cara percebeu que eu estava lendo seu jornal. Normalmente ele faria uma cara feia (por sinal, já era) e fecharia o jornal como se estivesse trancando um criminoso na masmorra… Pasmem!

 

Retirou outro jornal da bolsa e me ofereceu.

 

Recusei.

 

Isso é considerado dopping pelas regras do meu esporte. Se quero ler, tenho que conquistar este direito.

 

De qualquer forma fiquei abismado pela simpatia. Como fiel praticante do esporte “Leitura de Jornal Alheio”, costumo ser muito mais repreendido pelo grande público do que bem recebido.
Bom, enquanto a estação não chega, continuo procurando um outro jornal para ler.