Treino boxe há pouco mais de 1 ano.

Comecei devagar. Primeiro é necessário aprender a pular corda e a postura. Postura correta: barriga para dentro, levemente direcionada ao lado, braços em posição de guarda. Um protege a face, o outro o queixo. Olhos atentos ao adversário a frente. Primeiro o adversário é imaginável, depois se transforma em uma saco vermelho (muitas vezes vagabundo) que te olha sempre com olhos apáticos e rasgados. Muito depois se materializa em um colega.

Jab, direto, se movimentar.

Pular corda é muito difícil, mas acaba-se aprendendo. Difícil mesmo é aguentar pular sem parar. Vem com o tempo. Também com determinação. Mas tempo é importante

A esquiva é complicada. Bater é fácil. Evitar o soco são outros quinhentos. Nem quinhentos são, mas alguns meses de preparação se fazem necessários. Ainda não aprendi. Esquiva é mais complicado mesmo.
O saco esquiva bem.

Na aula acerta-se uma sequência no saco: jab-jab-direto-jab. Ele começa a se movimentar. A próxima sequência não entra. O saco foi mais rápido. O suor bateu no olho e confundiu o movimento. Jab-Jab-Direto-Jab. Agora entrou. O saco não esquivou. Porém possui um contra-ataque forte. Ajudado por seu eterno colega (o pêndulo), ele volta com tanta força quanto foi. Abestalhado, você apanha. Mas tudo bem, acaba-se aprendendo também.

O problema da aula de segunda-feira é o cheiro de cerveja podre que fica na academia.

Para ganhar uns trocados, o proprietário faz festas no fim de semana. Não deve dar muita gente, nunca sobra dinheiro para pagar o faxineiro. Segunda-feira o treino é perfumado com odores do fim de semana. Isto me irrita profundamente. Mas mantenho o foco no treino. Não se pode vacilar ou o saco acerta um direto em você.

Faço boxe há pouco mais de um ano e, semana passada, resolvi desistir.
Estava cansado, não via mais propósito nas aulas de segunda perfumadas de cerveja podre. Também acabava chegando tarde em casa. Satisfeito pelo exercício, porém tarde. Os colegas são bons, o professor é bom, mas nosso espaço daria arrepios em muitos Rockies Balboas por ai: o saco é pendurado na laje, o chão gruda seu sapato, o teto pinga, o ventilador explode.

Mas a aula era muito boa.

Um pouco mais de um ano depois, resolvi sair mesmo, procurar outro lugar, outros esporte. Mudar.

Fui fazer minha última aula despretensioso. Não falei para ninguém, mas havia decidido. Todo o investimento em luvas, mochila, faixar e roupa seria repassado a alguém se não encontrasse outra academia de boxe.
Treino pesado.

O professor leu minha mente, tenho certeza.

Quis coroar minha saída. Jab-Jab-Direto-Jab, esquiva, saco, pula, volta, luta. Jab-Jab…

Lutei feroz. Postura correta: barriga contraída, levemente para o lado. Braços sempre em guarda: um protegia a face direita e o outro o queixo. Olhos fixos no adversário e seus movimentos. Mente concentrada em prever o próximo ataque e calcular as alternativas. Pernas agitadas, pulava sem parar, me movimentava, me defendia, atacava, Jab-Jab-Direto-Jab.

Suava. Errava, mas continuava.

Fim do terceiro assalto.

O professor sempre dá uma orientação entre assaltos para os alunos. Geralmente genéricas. Apenas um professor para muitos alunos. Genéricas porém focadas em cada um. Às vezes reclama bastante com alguém. “Levante a guarda, ataque, se movimente”.

Geralmente este alguém sou eu. Minhas lições ora são fornecidas em palavras ora em golpes bem desferidos sobre minha barrida ou cara. Nunca doem, todos sabem se controlar.

Mas o ego geralmente é nocauteado.

Com o tempo aprendi que só se aprende assim. Pelo menos no boxe. Depois de pouco mais de um ano também aprendi a levantar a guarda e desferir um golpe na hora correta. Eu acho.

Fim do quarto assalto. Mais preleções do professor. Tudo bem, era minha última aula. Ele para de falar, olha na minha direção e vem. “Pronto”, pensei, lá vem reclamação.

Errei, veio um soco. Um soco moral.
Direto, sem chance de defesa. Do professor no aluno. Sem luva. A luva serve para proteger a cara do adversário. Ele estava sem luva. E logo na minha última aula.

Olhou em minha direção, parou. Deu uma sugestão de movimentação para um colega mais novo que estava no caminho e chegou.

“Lucas. Você está atacando bem. E sabe se defender, nunca baixa a guarda. Mas não pode esperar pelos outros. Tem que parar de esperar pelos outros.”
Ele falou mais. Não escutei. Aquela frase me bastou.
Ele estava falando do meu reflexo em luta. Da minha característica de, ao ver o adversário cansado, parar para deixar ele se recuperar. De esperar de mais para atacar.  De outros erros de boxe que cometo, e que é natural que eu cometa (pouco mais de um ano só… lembra?) e por isso estava me corrigindo.
“Tem que parar de esperar pelos outros”.
De alguma maneira este golpe entrou. De alguma forma, na hora ele me corrigiu uma postura de boxe. Mas eu estava trazendo esta postura da vida.
De fora do treino para dentro da luta.
Desisti de desistir.
Não me importa mais o cheiro de cerveja podre no chão da academia toda segunda-feira. Eu continuo treinando.
E observando mais.
Talvez não sei o quanto estou evoluindo no boxe. Mas o treino ganhou outro significado.

Jab-Jab-Direto-Jab.