Certa vez recebi um tapa



Não foi um tapa qualquer,

Ficou a marca, e não foram só 5 dedos.




Não, não… não que a mão hostil fosse algo amórfico, com centenas de terminações funcionais.




Mas cinco dedos seriam poucos, poucos demais.



Exageradamente poucos para descrever aquela marca.



Por sinal, “marca”, também não é uma palavra, digamos assim… apropriada.



Creio que cicatriz, talvez.


Tatuagem.



Tatuagem seria mais apropriado. A marca ficou para a vida toda.


O mundo parou. (Mesmo que momentaneamente), o mundo parou para mim.



Para mais ninguém ele parou. Mas para mim, aparentemente, ele parou.

A respiração, tensa, pesada, cadenciava o movimento dos ombros (longe de estarem relaxados).

De repente, os pés começam a perder contato com a superfície. Felizmente os olhos estavam ocupados demais para perceber o abismo que se abria por debaixo do corpo.


Bem, convenhamos novamente, mas “abismo” é uma analogia batida demais, gringa demais, comum demais e longe demais da minha realidade. Me permitam mudar a palavra.

P-I-R-A-M-B-E-I-R-A

A desgraçada da pirambeira posicionou-se logo a frente. 

Os olhos, ocupados vislumbrando o passado recente , ainda não haviam percebido o perigo de um inocente passo para frente.

A respiração continuava tensa, pesada.

A cabeça girava e pulsava.

Era um pulsar inquietante, proveniente daquela marca-tatuagem.

O pulsar transmitia uma mensagem silenciosamente inquietante.

Uma mensagem que parecia dizer: “agora”.


Não sei bem o porquê.


Sei que a mensagem parecia ser clara: “agora”.


Mas…”agora” o quê?


Ora, “agora” combina com muita coisa:

Agora vai
Agora fique
Agora se foi
Agora ou nunca.
Agora não se ligue não, viu?



Porém a desgraçada da marca só pulsava monotonicamente: “agora”.

Havia uma certa ânsia, em traduzir este “agora” por, talvez, um “já se foi”.

Seria uma tentativa melancólica de interpretar aquele bofetão como algo eternizado no passado, congelado em algum momento da existência.


Mas não.



A marca pulsava um “agora”, praticamente gritava. No que seja possível para uma marca multi-dedal gritar. 


Não me perguntem como, talvez seja um como que algumas pessoas já saibam. 


A marca gritava. 


Gritava bem ali, no meu pé do ouvido. Gritava para todo mundo ouvir.


E, enquanto meu corpo se recuperava, comecei a pensar de onde tinha se originado aquele tapa.

Não via mais a pirambeira (primo do abismo) a frente.

O mundo voltou a girar, para mim, porque ele não tinha parado para mais ninguém.

A respiração abandonava, paulatinamente, sua tensa harmonia sufocante.

O ar parecia voltar a um estado mais gasoso, distanciava-se daquela pasta intragável que havia respirado alguns minutos antes.

Os ombros continuavam tensos. Eles já estavam assim mesmo.




Mas isto foi certa vez, que recebi um tapa.


Sabe de quem foi?


Foi um tapa da vida.




E, um tapa da vida, meu amigo….


      um tapa da vida,  definitivamente….

                     
                                                   não é um tapa qualquer.



Ele deixa uma marca com muito mais do que cinco míseros dedinhos.



Ele deixa uma lição.



E é bom aprender “agora”, pois o próximo tapa, pode ser…


                                                                                       um murro.