Tem algum tempo, venho reaprendendo a andar de bicicleta. As pessoas dizem que nós nunca nos esquecemos como andar de bicicleta.
 
 
É mentira.
 
 
Esquecemos sim.
 
 
Mas pior que esquecer, o fato é que nem sempre aprendemos de verdade. Ou ainda mais, as coisas mudaram, até o “andar de biclicleta” mudou.
 
 
Tá bom… posso estar exagerando um pouco. Da infância para cá, uma coisa que mudou foi a cidade. Alias, quem mudou fui eu, eu mudei de cidade.
 
 
Mas o fato é que tive que reaprender a andar de bicicleta.
 
 
É o capacete atrapalhando, a luva suando, o cachorro passando na frente. É tudo. 
 
 
Até a percepção muda. Hoje em dia entendo mais o cara da bicicleta. Mas nem por isso xingo menos. Deveria?
 
 
Bom, detalhes a parte, percebi que nunca havia subido uma ladeira decente na vida (pedalando…pedalando…). E comecei a aprender a subir uma ladeira.
 
 
O que você acha? Que é fácil? Que é só pedalar? Pff…. éramos dois.
 
 
O fato é que não é, não é só pedalar. Pedalar é só um detalhe. Um detalhe louco, cansativo e pesado, porém um detalhe.
 
 
Há outras coisas que não são detalhes.
 
 
Imagine-se subindo uma ladeira. Se nunca subiu de bicicleta, imagine andando mesmo. Só que com um saco cheio de pedras amarrado no pé. Deve ser a mesma sensação.
 
 
Você concentra-se ao máximo, cada pingo de suor que cai no seu rosto compõe o louro da vitória. Significam uma conquista hercúlea.
 
 
Sua perna se esforça para rodar aquela correia (maldita correia depois de alguns minutos). Sua mão tensa, suada, dolorida, segura-se na bicicleta completamente colada.
 
 
Olhar para cima não é uma opção. Basta um lance dos olhos para o alto da ladeira que suas pernas iniciam um longo e doloroso protesto pelo fim desta jornada. A mente implora para você desistir.
 
 
Acha que estou exagerando? Experimente.
 
 
 
Sua única opção, uma questão de sobrevivência, é olhar para baixo. Olhar para a roda da bicicleta. A cabeça baixa demonstra humildade perante à Ladeira, deusa toda poderosa. Mas também impede que os olhos percebam o que falta e nos permite concentrar em cada centímetro de vitória que conquistamos nas pedaladas.
 
 
Aprendi a converter centímetros em vitórias, conquistas. 
 
 
Acha que estas duas coisas são muito diferentes? Experimente subir uma ladeira de bicicleta. 
 
 
Depois de um tempo, você se acostuma, ou pensa que se acostumou apenas para minimizar o sofrimento. Se sua perna for forte o suficiente e você encontrar seu ritmo (nem tão rápido para cansar nem tão devagar para cair), subir a ladeira é uma questão de tempo.
 
 
Subir a ladeira, depois de um tempo, vira um exercício psicológico. 
 
 
Perdão, esqueci da palavra “também”. Pois continua doendo e suando bastante, e não precisamos de terapia para entender isto.
 
 
Psicológico pois demora bastante para subir uma ladeira de bicicleta. E, lá pelas tantas, a vontade de desistir é grande.
 
 
Especialmente quando a quantidade de carros, cheio de turistas rindo, bebendo e cantando que passam do seu lado aumenta. Não… não é pelo medo dos carros, é pela vontade de ir para a mesma festa.
 
 
Por outro lado, tudo tem sua hora, a festa fica para depois. Vamos nos concentrar na ladeira.
 
 
Cabeça abaixada para … não sei para quê, mas mantenho a cabeça abaixada. 
 
 
Quando estamos perto do meio da ladeira, começam a passar diversas pessoas. Também de bicicleta. Não costumo ficar irritado por estar sendo ultrapassado. O que me irrita mesmo é quando dão “bom dia”.
 
 
“Bom dia”? Isto não é uma pracinha, é um campo de batalha! A guerra é entre a minha pessoa e a ladeira. Não há espaços para “bom dia”.
 
 
 
Mas eles continuam passando. Não sei o que é pior. O jeito é voltar a olhar para o chão e se concentrar na ladeira.
 
 
 
 
 
Cada centímetro é uma vitória.
 
 
 
 
 
Um pouco depois a mão começa a ficar dormente, o quadril já está doendo (ok… é a bunda mesmo). O suor bate no olho e a maldita ladeira não termina.
 
 
Onde está o desafio mental da coisa? 


Basicamente em se concentrar e saber que, com tempo e esforço você chega lá encima.


Não precisa segurar no retrovisor de uma van. Tem que esquecer a dor.
 
 
 
 
Estou REaprendendo a andar de bicicleta.
 
 
 
Porém, neste momento, estou mesmo é aprendendo a gostar de ladeiras, onde cada centímetro é uma vitória.