Acordar, no meio do sono, acordar é muito mais que levantar. Acordar é esquecer as maravilhas oníricas que só um travesseiro surrado pode te dar. 

 

É deixar para trás aquelas horas (ou minutos!) que não nos lembramos, porém que sentimos tanta falta. Acordar é esquecer sim.

 

Mas acordar é diferente de levantar. Levantamos ainda dormindo, levantamos ainda esquecidos de acordar, porém lembrados de sonhar. 

 

Com olhos fechados, os corredores gritam suas paredes em nosso caminho e, meio que sem saber, chegamos na cozinha. Sim, na cozinha. Para tomar banho. Só então percebemos, ainda dormindo, que a cozinha é na verdade o banheiro. 



Maravilhas de levantar dormindo.

 

 

 

Ainda sem acordar, pois nem sempre um banho na cozinha-banheiro nos acorda, nossa querida casa sussurra os demais afazeres matinais. Olhos bem fechados, a cara modelada pelo formato do travesseiro. 

 

Orelhas vermelhas. 

 

Vermelhas de sono… pelos? Levantados, e-r-i-ç-a-d-o-s.

Dedos do pé pulsando, implorando para continuarem abraçados com o lençol. Cada centímetro do corpo lutando contra o esquecimento, lutando pela memória, pela preservação da história, lutando por sua nação, encarando o destino, na tentativa de firmar bandeira na terra onírica.

 

Mas acordamos.



E dai esquecemos.

 

 

Fica a saudade, o gostinho de algo que foi e, mesmo sem entendermos direito o que era, não voltará mais. Pelo menos não até a noite.

 

O nariz coça um pouco, o cabelo é a mais pura imagem da revolta, a boca seca mais parece um Saara de satisfação.

 

 

Pouco a pouco vamos esquecendo…
Pouco a pouco vamos acordando…

 

 

Há alguns, poetas do sono, que recusam-se a despertar (irmão próximo de acordar). É necessário uma simpática buzina matinal para lembrar-lhes da postura que deve-se assumir quando toca o hino: peito estufado e olhos abertos.

 

E assim começa o dia…

 

                                                … simples e confuso.