Durante a vida passamos por diversos momentos de mudança e alguns de reflexão. Há também aqueles que nascem para nos provocar caos, uma desordem completa na existência e, quem sabe, até mesmo uma reviravolta no destino.
Mas hoje, foi um dia comum.
Tão comum quanto qualquer segunda-feira resfriada poderia ser. Com atrasos eventuais e imprevisíveis no trabalho (sim… pois a esta altura da vida já estou trabalhando, quem diria? Ou seria: ainda…), risos e preocupações passageiras que logo serão destinadas ao esquecimento profundo da memória.
O que esperar de um fim de dia? Ainda mais de uma segunda-feira? Muito mais ainda de uma segunda-feira fim-de-gripe, meia nublada, meia ensolarada, com médio trânsito? Por resumo: não havia mais nada a fazer naquela hora da noite, após o jantar, após o banho, a não ser: serviços domésticos.
E isto me lembrou que eu tinha que lavar as cuecas.
Lavar as cuecas é um ato muito maior do que uma simples frase pode descrever. Lavar a própria cueca significa (desde que você não lavasse suas cuecas antes) que você saiu de casa. O nariz, agora, é só seu. O sabão? Sua responsabilidade. E a paciência? Seu desafio. Lavar as cuecas significa que o futuro, cada vez mais, está se aproximando, que você está se tornando senhor das ações e das conseqüências, pelo menos de parte das conseqüências, e das ações.
De uma maneira menos poética: lavar a cuecas significa que agora você tem que fazer algo muito chato, extremamente necessário e sem extensão para o futuro, pois semana que vem, tudo volta.
Mas é quando menos se espera que um daqueles momentos de reflexão podem aparecer. O momento mágico, para não dizer fantástico, costuma vir logo após àquela exaltação à preguiça que todo bom lavador de cuecas novato faz. Exatamente depois de enxaguar, ensaboar e enxaguar quatro peças (o número preciso que se pode pendurar em um cabide), o amaldiçoado sai do banheiro olhando para o monte de tecido intímo sujo restante e se pergunta a validade daquele trabalho. E é ai que ele percebe algo: se somarmos o número de cuecas molhadas (e não há nada possamos fazer em relação a isso) com o número de cuecas sujas (idem) e mais uma (teoricamente, é por isso que temos cuecas sujas, pois estamos usando uma limpa) dá o número de cuecas declaradas no último imposto de renda.
O sentimento? Depende do caráter: os bem-aventurados dão graças pois não lavaram todas as cuecas, os mau-humorados e conformistas resmungam e vão dormir, os esperançosos lavam todas com o intuito de estarem secas de manhã.
Mas o verdadeiro lavador de cuecas não! Ele simplesmente pendura as quatro e vai para a sacola de meias sujas… aliás, provavelmente, ela se chama “sacola com todas as meias brancas, sujas”.
E viva ao lavador de cuecas novato.
A reflexão? Fica para outro dia, assim como as cuecas sujas.